Na nossa sociedade estagnada pela indolencia e pela corrupção elle é impunemente estorvado, calumniado, atraiçoado na mais legitima das suas aspirações—a aspiração do trabalho, por um ministro filho da intriga constitucional, sahido do parlamentarismo mais banal e mais chato, não exercendo nunca o trabalho nem sendo capaz de o respeitar em quem o exerce, tendo vivido sempre no parasitismo da politica, não produzindo coisa alguma, não tendo finalmente servido aos seus similhantes para outra cousa que não seja empobrocel-os quando come e corrompel-os quando governa.
Todavia não queremos mal ao sr. Barros e Cunha. Elle é simplesmente o producto fatal do seu meio. Inspira-nos um interesse sympathico a triste maneira de acabar que o está esperando. Os seus erros successivos offerecerão á critica e ao ataque uma vasta superficie exploravel. As suas faculdades não lhe permittirão defender-se.
D'aqui lhe fazemos uma prophecia: será medonhamente batido e deploravelmente derrotado, não porque offendeu o direito na pessoa de um trabalhador obscuro, o engenheiro João Burnay, não porque foi injusto, mas sim porque é inhabil e porque é fraco. É isto, e não aquillo, o que nunca lhe perdoarão os partidos politicos com os quaes irá dentro em pouco achar-se em hostilidade. Será o alvo das retaliações mais violentas, dos discursos mais acerbos na camara, dos artigos mais explosivos na imprensa. Hão de cercal-o como cercam os cães um javardo condemnado á morte. O improperio ha de se lhe aferrar ás espaduas e ha de mordel-o na nuca. A ironia ha de rir-lhe no nariz com uma gargalhada feroz, mostrando-lhe os dentes anavalhados e agudos,—de jacaré. A logica ha de lançar-lhe ao pescoço a sua golilha forrada de puas de ferro e hade leval-o de rastos por um grilhão atraz d'ella. A pilheria ha-de pôr-lhe rabos. A chalaça ha-de pegal-o com breu á cadeira de ministro. A chufa ha de coser-lhe as abas da casaca a um trambolho. A pulha ha-de deitar-lhe pós de sapatos. A laracha ha-de esguichal-o com tinta de campeche. A chacota ha-de fazer-lhe sair do nariz bandeirolas e baralhos de cartas. A troça ha-de dar-lhe no ventre estrondosas palmadas de zabumba em theatro de feira.
E nós apiedar-nos-hemos, por que nos magoam os espectaculos em que se destroe para sempre a dignidade de um homem. É por isso que damos ao sr. Barros e Cunha um conselho amigavel. S. ex.ª póde ser ainda um cidadão util e respeitavel. O que não póde é alliar esses titulos com o de ministro e secretario de estado dos negocios das obras publicas, commercio e industria.
Ha uma cousa mil vezes mais meritoria do que ser um mau ministro, é ser modestamente um bom homem. S. ex.ª póde ser bom homem. Seja-o. Seja-o para honra sua e dos seus similhantes. Demitta-se. Vá para sua casa.
Ser um ministro do genero de s. ex.ª é facil. Não o ser, porém não é mais difficil. Vá para casa. Dizem-nos que é rico. É além d'isso anglomano. Vá para casa cultivar esmeradamente a sua anglomania, sem desdouro para si nem para a especie de que faz parte. A exiguidade do seu craneo, cuja circumferencia mede uma quantidade de centimetros extremamente inferior á que a sciencia anthropologica exige para a elaboração das grandes e fortes idéas, não o impede ainda assim de ser, por exemplo, um cultivador modesto e prestante. Os chapeus do fallecido sr. Thiers, do sr. Disraelli, do sr. de Bismark cahem até o pescoço de s. ex.ª e deixam a sua pobre cabecinha tanto á larga dentro d'elles como um ovo dentro d'um sino. Mas ninguem tem obrigação de possuir precisamente o cerebro d'um reorganisador e d'um estadista.
A massa cephalica de que s. ex.ª dispõe habilita-o perfeitamente para ser muito util, dirigindo a cultura da celebre batata-rim, tão rara, tão preciosa, tão procurada no mercado de Londres. S. ex.ª poderia ainda tentar nas suas vastas propriedades a creação em grande escala dos coelhos, á moda ingleza, o fabrico da manteiga, a queijaria, a piscicultura, o aperfeiçoamento das raças lanigeras, o estabelecimento das pateiras e das capoeiras-modelos, etc. Se s. ex.ª applicasse as forças do seu nervosismo a prestar á humanidade esses serviços modestos mas valiosos, s. ex.ª teria as grandes alegrias, as profundas satisfações tranquillas das naturezas harmonicas, e o seu nome seria querido e abençoado como o d'um cidadão prestadio e d'um homem de bem.
Persistindo em ser um politico, s. ex.ª deixará apenas na terra o desprezo com que a humanidade castiga aquelles que, imaginando servil-a, não fizeram senão prejudical-a.
Assim como a ferocidade, a incompetencia tem tambem os seus Attilas. A differença é, que uns requeimam a herva, os outros comem-a. O estrago é o mesmo.