Na idade média, quando os bomens, dedicando-se inteiramente ao officio das armas, não tinham tempo de cultivar o espirito pelo estudo, as senhoras da alta sociedade, como vemos nas condessas de Champagne, na mãe de Godofredo de Bulhões, na amante de Abeilard, recebiam a mais esmerada educação litteraria. Sabiam o latim, conheciam os antigos poetas e os moralistas e estudavam os elementos da physiologia e da meteorologia nas obras dos arabes.

Em todas as civilisações a mulher bem educada se habilita para desempenhar o papel que lhe cabe na harmonia social.

Na nossa época de fria analyse, de implacavel utilitarismo, a primeira das obrigações da mulher consiste em tornar-se util. Ser util é para ella o grande segredo de ser querida, de ser forte, de ser dominadora. Toda a educação feminina tem de partir d'este principio.


A alta cultura do espirito, tão necessaria á mulher para que ella assuma na sociedade a parte do poder a que tem direito, não se ministra nas escolas, adquire-se pelo esforço e pela applicação individual dirigida por um criterio, por um methodo, por uma disciplina, que a mulher só póde adquirir na grande escola pratica da vida domestica. Todas as noções que nos possa ministrar o estudo das sciencias mais superiores estão subordinadas para a sua assimilação no nosso espirito a esta noção previa: a noção da responsabilidade e do dever. Ora essa noção primordial só a adquire a mulher nas praticas da vida domestica.

O aperfeiçoamento intellectual das mulheres não só não é incompativel, como algumas julgam, com a perfeita direcção do ménage, mas antes depende essencialmonte do grave estado de espirito que essa direcção impõe.

Em Portugal, onde a sciencia do governo da casa é tão lastimosamente ignorada, vejamos quaes são as producções do espirito feminino, quaes são os fructos da educação litteraria desalliada da educação domestica.

Os almanachs da sr.ª D. Guiomar Torrezão têem o grande valor historico de serem o repositorio d'esses fructos. É por esses almanachs que a posteridade tem de julgar do valor intellectual das nossas contemporaneas.

Acabamos de folhear do principio ao fim um numero do Almanach das Senhoras, que temos presente. Temos tambem presente a Gazeta das Salas, egualmente redigida por senhoras. Deus nos defenda de que qualquer estrangeiro procure julgar sobre estas producções litterarias do estado do espirito feminino na sociedade portugueza! Em todas estas collecções dos trabalhos intellectuaes das nossas mulheres—sentimos dizel-o—não ha um só artigo grave, serio, meditado, revelando conhecimentos praticos, aspirações elevadas, pensamentos nobres. De tantos problemas sociaes que affectam a condição da mulher na sociedade contemporanea e que sollicitam a attenção d'ella, para serem resolvidos pela parte mais interessada e mais compentente da humanidade, nem um só foi julgado digno do estudo d'alguma das senhoras que fazem imprimir e publicar os seus escriptos em Portugal! Estas senhoras produzem versos—não como os de madame Hackerman, cujos poemas recentemente publicados constituem uma revolução na poesia moderna e são o grito mais profundo e mais lancinante que ainda expediu no mundo a alma mais sedenta de verdade e de justiça,—mas sim trovas d'uma sentimentalidade de segunda mão, sem ideal, sem paixão, d'uma pieguice grotesca. Escrevem tambem pequenos contos ou novellas d'amores infelizes, cujos personagens se tratam por excellencia e se requebram em artificios d'um dandysmo, cuja legitimidade está longe de poder ser absolutamente garantida, não dizemos já n'um congresso de gentlemen, mas n'um simples tribunal de cabelleireiros. E é para nos dar estes lamentaveis fructos da sua educação exclusivamente litteraria, que tanta menina honesta sacrifica o tempo que devia consagrar aos nobres trabalhos do ménage, tornando-se, em vez d'uma digna mulher util, apta para acompanhar, para comprehender e para ajudar o homem, uma pobre e misera creatura neutra, desorientada da vida real, incapaz de qualquer emprego na vida pratica, cheia de falsas aspirações, de desenganos e de tedios permanentes.

Compare-se o Almanach das Senhoras, com as collecções estrangeiras collaboradas por mulheres. É esse o melhor modo de reconhecer como a educação pratica da ménagère, eleva o espirito, como a educação litteraria do collegio portuguez o deprime e avilta.