A Inglaterra comprehendeu finalmente que a circumstancia de não saberem as suas mulheres fazer bom caldo constituia uma inferioridade nacional e compromettia o destino do povo inglez. Para remediar este mal, que obstava ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento physico e moral dos seus habitantes, a Inglaterra fundou, em 1876, um notavel estabelecimento publico de educação feminina intitulado Escola nacional de cozinha. O numero das alumnas matriculadas na nova escola subiu rapidamente a cerca de duas mil. Para satisfazer as necessidades do ensino foi preciso estabelecer não menos de vinte e nove succursaes da escola de cozinheiras. Entre as alumnas que frequentam essas escolas figuram meninas das mais aristocraticas familias da Inglaterra. Algumas estão inscriptas como simples ouvintes e assistem aos trabalhos tomando as competentes notas nos seus cadernos; muitas outras atam o avental e descem aos processos indo trabalhar alegremente á banca das operações, ou junto do fogão, vigiando a cassarola e o espeto.

Um só facto basta para evidenciar a vantagem d'esta especie de ensino na economia domestica: As classes de cosinha da instituição britanica estão divididas em varias secções dependentes do orçamento a que as familias teem de cingir as suas despezas; ha uma secção destinada a ensinar os meios de alimentar do modo mais hygienico e mais agradavel uma familia que não possa applicar á cozinha mais que uma verba de 1$600 réis por semana! Em Portugal tão descurado está este importante assumpto que, não obstante a fertilidade do nosso solo e a benignidade do nosso clima, é inteiramente impossivel estabelecer com 1$600 réis por semana um conveniente regimen alimenticio para uma familia de quatro pessoas.

O curso de cozinha nos collegios portuguezes deveria ser organisado praticamente como na Inglaterra, ensinando-se ás alumnas o valor chimico das principaes substancias empregadas na alimentação, o seu preço ordinario no mercado, a sua acção physiologica sobre o nosso organismo, o modo de variar os jantares segundo as occupações de cada dia, segundo o temperamento de quem tem de os assimilar, e segundo as estações do anno em que elles houverem de ser feitos.


No curso de contabilidade do terceiro anno dos collegios, as alumnas deveriam aprender a escripturar methodicamente a receita e a despeza da familia, suppostos dados rendimentos, desde os mais estreitos até os mais avultados, calculando desde o principio do anno o modo de manter o balanço entre as posses e os gastos, lançando em conta de receita todos os proventos e fixando-se nas verbas de despeza proporcional nos differentes capitulos orçamentaes: a renda da casa, a acquisição e os reparos da mobilia, o vestuario, o serviço, a illuminação, a lavagem, as despezas imprevistas, e o fundo de reserva—verba essencial, indispensavel em todo o orçamento, grande ou pequeno, de toda a casa sabiamente dirigida.


Fortalecida com a educação feita n'estas bases, esboçadamente expostas, a mulher terá dado o primeiro passo, mas o passo definitivo para a sua verdadeira emancipação. Porque emancipar-nos não é em ultimo resultado mais do que isto: habilitamo-nos a prestar na sociedade serviços equivalentes ou superiores áquelles que recebemos. Com a mulher invencivelmente armada com as aptidões que requisitamos para que ella seja a alma do governo domestico, o casamento deixa de ser a ruina com que nos ameaça o proloquio vulgar: uma casa é uma loba. Não; a casa, dirigida como a mulher deveria aprender a dirigil-a, é a ordem, é o methodo, é a economia, é a estabilidade, é a fixação do destino, é o baluarte do homem. A funcção da mulher bem educada é essencialmente protectora. Na lucta da vida por meio da alliança conjugal e da ligação domestica, o homem é a espada, a mulher é o escudo. O fim da educação feminina é compenetrar a mulher da responsabilidade da sua missão e fortificar-lhe o braço que tem de ser o nosso amparo querido, o nosso doce refugio.

Se a mulher imagina que o casamento, seu natural destino, é um facto dependente dos encantos da sua belleza e do seu agrado, a mulher engana-se deploravalmente. Os modernos trabalhos estatisticos provam com factos n'um periodo do cem annos que o numero dos casamentos está sempre em relação constante com o preço dos trigos. Se o pão encarece os casamentos diminuem. A' baixa no preço do pão corresponde pelo contrario uma elevação proporcional no numero dos casamentos. O casamento, portanto é um facto moral estreitamente ligado não a um phenomeno esthetico mas a um phenomeno economico. A base do casamento é a economia. A economia domestica é a primeira das aptidões com que deve dotar-se a mulher.


Em todos os paizes civilisados, por toda a parte do mundo, a educação da mulher está passando por uma revolução profunda suscitada pelos esforços de todos os pensadores. A educação vulgar da mulher moderna reconheceu-se que constituia um elemento dissolvente da dignidade e da aspiração das sociedades contemporaneas. Na antiga Roma a doçura, a graça, a ternura, todos os attractivos sentimentaes que ainda hoje vemos cultivados na educação das mulheres honestas eram attributos exclusivos das cortezãs. Um critico notou como nas comedias de Plauto as matronas não conhecem as effusões e os arrebatamentos da paixão; não são timidas nem scismadoras; têem o ar decidido, fallam em tom firme e viril. As meninas ricas eram educadas em casa com seus irmãos por escravos instruidos e letrados; recebiam as mesmas lições e estudavam nos mesmos livros. As pobres iam ás escolas publicas, no Forum, juntamente com os rapazes, como actualmente acontece nos Estados Unidos.