Os processos scientificos mais perfeitos de lavar e de enxugar a roupa branca, o fato, as rendas finas, os tulles, as sedas, os tapetes, as esponjas, as escovas; de conservar e concertar todos os objectos do uso domestico; de regular o uso do banho, de lavar o cabello, de fazer os melhores pós de dentes, a melhor pomada, a melhor agua de toilette; de arejar e de desinfectar os aposentos; de polir os metaes e as madeiras; de encerar os soalhos; de limpar os vidros e as laminass dos espelhos; de envernisar os quadros; de concertar os livros e as estampas. Aprenderia ainda os methodos mais hygienicos ou mais racionais: de escolher os aposentos de uma casa, segundo o fim a que cada um d'elles se destina; de dispor os moveis; de pendurar os quadros; de collocar a bateria das caçarolas; de montar a despensa e a garrafeira; de fazer os inventarios e os roes; de dobrar e guardar a roupa branca e a roupa de mesa em lotes numerados; de pôr a mesa para os grandes e para os pequenos jantares.

Este curso completar-se-ia com algumas noções accessorias: dos differentes generos de mobilia e do seu estylo caracteristico nas épocas mais notaveis da historia da arte ornamental; das principaes louças, vidros, crystaes, tecidos empregados nos estofos da mobilia e no vestuario, e historia da fabricação d'esses estofos.


No curso de chimica culinaria, do segundo anno do collegio, a menina aprenderia, primeiro que tudo, a fazer um caldo.

O caldo é a base do toda a alimentação sabiamente dirigida, não porque o caldo de per si só constitua um alimento importante, mas porque é o caldo bem feito que estimula o systema intestinal e o habilita para uma boa digestão.

Toda a mulher que não sabe fazer um caldo, deveria ser prohibida de dirigir uma casa. Sobre a ignorancia culinaria da maior parte das senhoras portuguezas pesa a responsabilidade tremenda da dyspepsia nacional.

Não temos estomagos sãos porque não temos mulheres instruidas. Esta affirmação póde parecer uma phantasia do estylo; é uma pura verdade physiologica e é um facto social. Em Lisboa ignora-se completamente o que é um caldo, porque esse delicado producto chimico só o sabem preparar os cozinheiros de 5:000 francos de ordenado. As familias que não podem aggregar-se funccionarios d'esse preço e que não são dirigidas por senhoras que saibam o seu officio, tomam, em vez de caldo, um liquido gorduroso e opaco, mais ou menos condimentado e indigesto. A condição essencial do caldo bem feito é que elle contenha a maxima quantidade de materias odoriferas extraídas da carne, (vid. Liebig), que não tenha o minimo vestigio de gordura, que seja aromatico e perfeitamente transparente.

Se tivessemos alguma esperança de que a sr.ª D. Jeronyma o ensinasse ás suas educandas, dir-lhe-iamos como um caldo se faz. Mas a sr.ª D. Jeronyma acha mais util ensinar o que é o substantivo. Como se alguem no mundo precisasse, para o que quer que fosse, de saber o que o substantivo é! Como se immensas pessoas (em cujo numero nos contamos), não estivessem mesmo convencidas de que jámais existiu na natureza o substantivo, e que elle é uma pura chimera menos interessante que o papão!

Ha todavia no mundo quem não seja inteiramente da opinião da sr.ª D. Jeronyma. Um dos sabios mais eminentes do mundo actual, o sr. Wirchow, demonstrava ha pouco tempo em Berlim que a intima correlação que existe no seio de uma sociedade entre a condição das mulheres e o progresso da civilisação depende de uma outra correlação não menos intima que existe entre a mulher e a cozinha. O principal agente do temperamento de um povo, do seu caracter, da formação das suas idéas, é a sua alimentação. É principalmente pela sua inflencia na cozinha que a mulher civilisada governa o mundo e determina o destino das sociedades.

Em Londres os mais importantes jornaes, como a Quaterly Review, teem chamado para este assumpto a attenção dos poderes publicos e da iniciativa particular por meio de muitos artigos successivos ácerca da regeneração da cozinha, da arte de jantar, do estudo comparativo das cozinhas dos differentes póvos, etc.