Se tivessemos a immerecida honra de sermos considerados pela imprensa como um de seus membros, eis o que proporiamos.


A obra monumental, posto que ainda incompleta do finado escriptor, a sua Historia de Portugal, é possivel que houvesse já sido lida, mas, com quanto escripta ha muitos annos, não foi por emquanto estudada.

Em todo o longo trabalho de investigação, de critica, d'analyse, de deducção, que constitue a materia d'esses quatro volumes, o publico portuguez não viu senão dois factos extremamente subalternos na obra do philosopho e na obra do artista:—a negação do milagre d'Ourique e das côrtes de Lamego.

O historiador da nossa nacionalidade não foi olhado se não debaixo d'um aspecto,—o aspecto das nossas superstições.

As origens do direito, da arte, da propriedade, da religião, da familia, da patria interessaram-nos d'um modo tão mediocre que nunca nos suggeriram uma idéa clara sobre qualquer d'esses phenomenos.

De tão multiplos problemas suscitados ou resolvidos pelo historiador da nossa vida civil, um unico nos commoveu até as mais intimas profundidades do nosso organismo social: Se Jesus Christo tinha ou não tinha vindo cavaquear com D. Affonso Henriques na vespera d'uma batalha, e se a derrota dos mouros fora ou não o resultado d'uma operação estrategica combinada de commum accordo entre os dois poderosos inimigos do kalifado de Cordova, o filho do conde D. Henrique e o filho de Deus.

Todas as demais questões debatidas nos quatro volumes da Historia de Portugal passaram inteiramente despercebidas do jornalismo portuguez, o qual não teve ainda, até hoje, occasião de publicar um artigo scientificamente fundamentado ácerca do papel do nosso primeiro historiador na direcção dos estudos historicos e na comprehensão das leis fundamentaes da nossa evolução social.

A homenagem que a imprensa deve prestar a Alexandre Herculano é a publicação d'esse estudo, porque o primeiro dever dos jornalistas perante um grande escriptor é mostrar que o leram. Com relação a Herculano essa divida está por saldar, e a imprensa tem que desempenhar-se d'ella com tanta mais promptidão, quanto é certo que o seu longo silencio podia ter sido uma das causas que levaram o iniciador dos trabalhos historicos portuguezes a talhar para si mesmo a triste mortalha em que desceu envolto para o tumulo—a mortalha do desprezo. Não conseguiu merecer-lhe mais o espirito dos contemporaneos.