Ha poucos dias ainda a França viu cair Thiers na estacada, em pleno combate. Era um velho pequenino, valetudinario, quasi rachitico. Desde muito tempo que elle era sufficientemente rico para gosar a tranquilidade egoista, imperturbavel, do mais poderoso principe. A sua longa vida fôra uma serie nunca interrompida de combates, de derrotas, de triumphos, das mais violentas commoções que podem opprimir e dilacerar uma alma. Ha dez annos que poucos teriam como elle o direito de solicitar um pouco de tranquilidade e um pouco de sombra. Elle todavia permanece no ponto mais temeroso da peleja, e é a essa pertinacia d'um só homem, tão debil e tão caduco que qualquer mulher poderia pegal-o ao collo e adormecel-o como um baby, que a França deve a sua reconstituição politica e social, e a democracia a affirmação mais poderosa e mais energica d'uma republica no coração da Europa.
Na Inglaterra, não já um homem mas uma simples mulher, que teve um papel decisivo no movimento das idéas modernas, Miss Martineau, ferida por uma lesão do coração, desenganada pela medicina de que não pode ter mais d'um anno de vida, concentra durante esse anno todas as suas faculdades na conclusão da sua ultima obra, conta a uma por uma em beneficio do seu similhante as suas derradeiras pulsações, e sob uma condemnação mais peremptoria e mais tremenda que a de Condorcet, arranca da sua invencivel vontade a energia precisa para escrever com a lucidez mais profunda, com a firmeza mais viril, com a coragem mais heroica, o admiravel livro em que depõe com a ultima palavra o ultimo suspiro.
Uma celebridade subalterna, um simples poeta, um romancista, um talento d'especialidade, tem o direito de fazer um livro e de se calar para todo o sempre; mas o cidadão em quem concorrem as multiplas aptidões cerebraes que constituem os espiritos superiores, as capacidades dirigentes, não tem esse direito.
A benevolencia devida aos vivos póde levar-nos a respeitar nos actos de cada homem um producto indiscutivel da sua liberdade; a verdade porém devida aos mortos, a incorruptivel verdade, tem diante dos tumulos o dever de considerar, em nome da justiça e em nome da sociedade, todas as condições que encaminharam ou desencaminharam uma existencia n'essa linha ideal a que convergem as mais altas aspirações da humanidade.
E é só assim que as gerações aprendem o que têem de agradecer e o que têem de perdoar aos obreiros do passado, tirando d'esse juizo austero sobre a missão dos que morreram, a regra moral a que têem de submetter-se aquelles que estão vivos.
A elaboração psychologica das causas que levaram o espirito de Herculano a quebrar as suas relações mentaes com a sociedade, é um importante estudo a que se acham obrigados aquelles que viveram na intimidade e na confidencia do grande escriptor. A sociedade precisa de saber que grau de responsabilidade lhe cabe no emudecimento d'essa voz. Porque a isolação d'Herculano não é um simples episodio biographico, é um facto social, é um dos mais tristes phenomenos da decadencia portugueza.
O exemplo do solitario de Valle de Lobos será profundamente nocivo, se não for cabalmente explicado como uma fatalidade sociologica.
Todos aquelles que trabalham com dedicação e com honra, que se consideram responsaveis diante dos seus similhantes pela conclusão do trabalho que a si mesmos se impuzeram, que se dedicam á sua missão, que vêem n'ella uma parte integrante da grande obra collectiva da humanidade, todos aquelles que teem na vida um fito superior e desinteressado, estão sujeitos em cada dia, em cada hora, em cada instante, á grande lucta da consciencia com as suggestões do egoismo, com a ingratidão dos homens, com a calumnia, com a traição, com o desdem. É perigoso para os que teem ainda, no meio da dissolução geral dos caracteres, esse vivo sentimento da solidariedade, essa corajosa dedicação do martyrio, essa persistencia no lento suicidio que é a vida de todos os que pensam e de todos os que luctam, o ver de repente sossobrar e afundir-se na fria impassibilidade e na tenebrosa indifferença o alto luminar destinado a indicar a uma geração inteira o arduo e penoso rumo do dever.
Lemos em um jornal que a imprensa de Lisboa, reunida em assembléa para o fim de pagar á memoria de Alexandre Herculano o tributo da sua admiração, resolvera abrir uma subscripção destinada a elevar um monumento ao insigne escriptor. Parece, segundo o mesmo boato, que não está ainda resolvido de que natureza será o monumento em projecto.