A arte desnacionalisa-se e afasta-se cada vez mais do fio tradicional que a devia prender estreitamente á grande alma popular.
A opinião publica, marasmada pela indifferença, deshabitua-se de pensar e perde o justo criterio por que se julgam os homens e os factos.
Se um pensador da alta competencia e da grande auctoridade de Alexandre Herculano tivesse persistido durante os ultimos vinte annos á frente do movimento intellectual do seu tempo, essa influencia teria modificado importantemente o nosso estado social.
Na politica ninguem como elle, com as suas opiniões extremas e radicaes, poderia originar a creação dos dois grandes e fortes partidos—o partido conservador e o partido revolucionario,—de cuja controversia depende essencialmente não só o progresso politico da sociedade portugueza, mas a propria conservação do seu regimen constitucional.
Na imprensa ninguem como elle poderia elevar a auctoridade da instituição com a sua palavra tão scintillante, tão denodada, tão propria para o debate, e com a sua experiencia tão esclarecida pela convivencia e pela cultura da historia.
Na opinião e no espirito publico, ninguem teria uma acção tão segura e tão decisiva, porque ninguem como elle gosou em Portugal d'um tão inteiro prestigio e d'uma tão completa e absoluta auctoridade.
Na arte, ninguem ainda mais proprio para levar a creação esthetica á fonte nativa da inspiração, á tradição historica, á raiz da paixão e do sentimento nacional.
Exercer essa alta direcção dos espiritos é nas sociedades modernas a missão dos grandes homens. Dos eminentes escriptores europeus d'este seculo Herculano foi o unico que espontaneamente abandonou na força da intelligencia e da vida o posto de honra a que chegára pelo esforço do seu trabalho e pela posse dos mais felizes dons com que a natureza o dotára.
Guizot, Michelet, Buckle, Proudhon, Stuart Mill, todos os modernos, todos os que vieram depois de definido pela Revolução o dogma do dever social, viveram combatendo até á ultima hora e morreram com a penna na mão.