Como philosopho, como investigador, como critico, como poeta, Alexandre Herculano cria em Portugal os estudos historicos; funda a mais importante collecção dos modernos trabalhos litterarios—o Panorama; enobrece a lingua com o seu stylo nitido e cortante em que a phrase tem o lampejo e o golpe dos passes de espada; honra o officio das letras com o porte rigido, austero e elegante de sua figura litteraria, em que se denuncia o contorno do guerrilheiro portuense envolto no capote branco dos romanticos de 1830, que elle sabia traçar com o garbo marcial d'Alfred de Vigny; cria escola; agrupa em volta de si uma mocidade que o admira e que o idolatra; espede o grito de guerra, que põe em armas a nova geração que vem despontando atraz d'elle; chama á peleja o partido ultramontano e desfecha elle mesmo os primeiros tiros que rompem as hostilidades da liberdade com o clericalismo; lança finalmente as bases do moderno movimento intellectual, suggere novas idéas, novas aspirações, novos interesses moraes, impulsionando vigorosamente a sua época por meio das fecundas agitações do espirito que acceleram nas sociedades vivas a elaboração do progresso.


Como illustre solitario de Valle de Lobos, Herculano rescinde a sacrosanta escriptura da responsabilidade universal, por via da qual o genio do homem se obriga tacitamente com a natureza a servil-a, como sendo elle mesmo a mais poderosa das forças de que dispõe o grande universo; desdiz com o seu repentino silencio todas as affirmações da sua grande voz; abjura da luz diffundida pelas suas palavras á sombra projectada pelas suas oliveiras; nega o movimento que creou pela inacção em que caiu; desdá finalmente todos os laços de solidariedade que o prendiam aos seus compatriotas e aos seus similhantes, que vinculavam o seu destino intellectual aos destinos da patria e da humanidade.

O dia do nosso grande lucto nacional não é aquelle em que expirou o solitario illustre, mas sim aquelle em que deixou de existir para o vertiginoso bulicio da vida publica o ardente escriptor, que no seio da multidão fluctuante, estrepitosa, leviana, indifferente, perfida, traiçoeira, ingrata, lançava ás praças e ás ruas publicas, lamacentas e sordidas, as suas idéas de cada dia, nobres, castas, desinteressadas, aladas pelo alphabeto typographico, adejando sobre as immundicias e sobre as dejecções da cidade, como douradas abelhas impollutas, que vão de alma em alma sacudindo das azas luminosas em pollen diamantino a divina verdade.


A isolação de Herculano no remanso esteril do dilettantismo bucolico, comprometteu o destino mental d'uma geração inteira. Pelo intenso poder das suas faculdades reflexivas, pela eminencia do seu talento, pela auctoridade da sua palavra, pela popularidade do seu nome, pela reputação nunca discutida da sua honestidade, elle era o homem naturalmente indicado para assumir o pontificado intellectual do seu tempo. A ausencia d'essa auctoridade do espirito sobre o espirito foi uma catastrophe para a geração moderna.

Tudo se resentiu na sociedade portugueza, com o desapparecimento d'esse alto poder moderador, destinado a ser o nucleo do seu governo moral.

Á tribuna parlamentar nunca mais tornou a subir um homem cuja voz firme, sonora e vibrante levasse até os quatro cantos do paiz a expressão viril das grandes convicções inflexiveis, dos altos e potentes enthusiasmos ou dos profundos e implacaveis desdens. Essa pobre tribuna deserta degradou-se successivamente até não ser hoje mais do que uma prateleira mal engonçada com algum lixo e o respectivo copo d'agoa.

A imprensa decaiu como decaiu a tribuna. Assaltada pelas mediocridades ambiciosas e pelas incompetencias audazes, a imprensa tornou-se um tablado de saltimbancos de feira, convidando o publico a 10 réis por cabeça, para assistir, entre assobios e arremessos de cenouras e de batatas podres, á representação da desbocada comedia, declamada em giria da matula por personagens sarapintados a vermelhão e a ocre, que mostram o punho arregaçado e sapateiam as taboas, como em sarabanda de negros e patifes, com os seus pés miseraveis.

A politica converteu-se em uma vasta associação de intriga, em que os socios combinam dividir-se em diversos grupos, cuja missão é impellirem-se e repellirem-se successivamente uns aos outros, até que a cada um d'elles chegue o mais frequentemente que for possivel a vez d'entrar e sair do governo. Nos pequenos periodos que decorrem entre a chegada e a partida de cada ministerio o grupo respectivo renova-se, depondo alguns dos seus membros nos cargos publicos que vagaram e recrutando novos adeptos candidatos aos logares que vierem a vagar. É este trabalho de assimilação e desassimilação dos partidos, que constitue a vida organica do que se chama a politica portugueza.