É inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada hora, já dormindo, já caminhando, já executando um trabalho mental ou muscular, para regular sobre este dispendio a ração alimentar de cada individuo. É inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo dos diversos alimentos e da quantidade de força e de calor desenvolvida pela oxydação d'elles. É inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton nos tenham mostrado pela comparação das estatísticas da salubridade nas campanhas da Criméa e da Italia o extraordinario poder da qualidade da alimentação sobre a saude e sobre a energia dos soldados. É inutil que pelo estudo de iguaes estatísticas com relação á alimentação de operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da qualidade da alimentação resulta o augmento ou a diminuição de 20 a 30 por cento no trabalho de cada homem. É inutil que Geoffrey Saint-Hilaire nos tenha dito: «Quantos factos na vida das nações attribuidos pelos historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside simplesmente na cosinha das familias!». É inutil que toda a sciencia tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos nervinos é uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do nosso tempo; que é indispensavel perante a moral e perante a justiça melhorar a alimentação dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisição dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua economia. É inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisação e de associação chamar a attenção das mulheres para o estudo e para a resolução d'esse grave problema cuja sede é a cosinha. É inutil tudo quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos empyricamente do que por tel-o visto fazer á cozinheira da sua avó.

Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradição sobre os methodos de deitar a carne á panella nas cosinhas da sua rua este argumento supremo: Foi com essa panella á frente que os portuguezes contiveram em respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abraçados à travessa do cosido que nossos avós descobriram a India e que os paes de uns de nós resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os vencidos jantavam no Bignon ou no Café Anglais.

Em presença d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o statu quo na perfeita educação da mulher portugueza. Continue sua excellencia imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um vestido e que sabe tambem—ó legítimo orgulho!—fazer doce.—De mais a mais—notem—sua excellencia faz doce! Não! positivamente nada se nos offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. Não precisa de saber mais nada. Ahi tem sua excellencia uma opinião que lhe garantirá «as solidas virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os enthusiasmos da paixão»:—sua excellencia gosta de assucar!

Quem sabe se não será por um effeito do atavismo sobre a gula qae os meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vão beber licores para os botequins?

As mães dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem ellas mesmas não a opinião do assucar mas sim a do roast-beef e da agua fria; não fazem doce, fazem gymnastica, e não ensinam os filhos unicamente a comer marmelada, a ir á novena e a não metter os pés nas poças; ensinam-lhes o cricket, a natação e o box, dão-lhes desde a idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles vão para os botequins, não costumam encarregar os criticos de lh'os ir lá buscar.


Sua excellencia não se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo segundo os preceitos de Liebig, que nós lhe aconselhamos suppondo que Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais d'isso do que o Antonio das Môças, celebre inculcador de cosinheiras, encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da arte culinaria. Sua excellencia não só não quer fazer caldo em termos para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os pratos e os copos, determinar a differença de côr nos estofos do salão e da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna, pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto á sociedade conjugal um serviço igual áquelle que recebe d'ella em proteção, em trabalho e em força. Sua excellencia prefere deixar todos esses conhecimentos aos cuidados do dono da casa (!) cuja vontade considera a lei suprema, na escolha de todos os artigos!

Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funcções que sua excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma não tivesse a bondade de nos explicar que a occupação para que se reserva é a de abençoar agradecida a mão que prende as suas algemas de escrava (!)

O que nos parece é que esse mister exclusivo de sua excellencia não promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas algemas!

Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abençoar os ferros, a jogar a bisca. O nosso temperamento não nos permittiria estar a dar-lhe constantemente o grilhão a abençoar; quereriamos ter a faculdade de poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma bôa rôlha.