Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz interprete, dirigi-se ás Farpas na pessoa do seu auctor.

O que são as Farpas com relação ás mulheres?

As Farpas são a publicação periodica—unica em Portugal—que em artigos consecutivos desde a sua apparição até hoje se tem constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica á reconstituição dos costumes e á reorganisação da familia segundo o criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituições perante a dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijão physiologico e social; teem dado como base á emancipação da mulher a instrucção pratica, tão defficiente, e a alta cultura do espirito, tão negligentemente descurada na antiga educação; teem-lhe ensinado que é aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrirá o segredo de ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua collaboração no estudo dos modernos problemas sociaes como factor indispensavel á fixação do nosso destino; teem pedido instantemente para ella a fundação de novas escolas de ensino especial e de ensino superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito presente de uma infinidade de theorias, de noções, de projectos, de systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos—é claro—mas demonstrando uma dedicação excepcional, por isso que nenhuma das publicações periodicas que precederam esta se dirigiu jámais ás mulheres a não ser para lhes consagrar romances de uma moralidade suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa.

Depois de publicados cerca de quarenta volumes da colleção das Farpas uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe o seguinte conselho como resumo da opinião collectiva de todas as damas portuguezas:

«Que elle trate d'outro officio e deixe aos palhaços dos circos o trabalho a que até aqui se tem dado de fazer rir os outros!»

Este simples conselho é como um relampago, nas trevas do nosso espirito. Elle de per si só basta para nos convencer de que a educação das senhoras portuguezas não só é igual—como a auctora modestamente formula—á das primeiras mulheres extrangeiras, mas que póde mesmo considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de Girardin, Lady Morgan não tiveram nunca para dirigir a um escriptor qualquer—amigo ou adversario—uma palavra tão lucida, tão conceituosa, tão profunda e ao mesmo tempo tão finamente aristocratica, tão nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que não somos mais que um palhaço de circo, opinião profundamente philosophica. É talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos lessem. É natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas, entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas recordações perdidas da sua carteira ou do seu coração, um pequeno meio qualquer de não chamarem completamente palhaço com todas as suas cinco lettras e a sua respectiva cedilha, p-a-l-h-a-ç-o a um homem a quem os seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa.

Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia e da sua propria dignidade uma comprehensão diversa, que não podemos deixar de attribuir com orgulho patriotico á influencia local da rua de Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina.

Não é menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e chimica culinaria ás menínas portuguezas. Se sua excellencia tivesse effectivamente a instrução que nós pretendemos que se lhe deve dar; se sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre missão da mulher é, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que estava apta para cumprir no seio da sua familia essa missão, sua excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da nutrição, a evolução cellular, a relação existente entre os phenomenos da nutrição e do desenvolvimento, do movimento e da combustão; se nos mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares pelas suas classificações mais genericas, os que fornecem o calor e a força e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada á hygiene, pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as substancias alimentícias, pelo sr. Champouillon na sua Hygiene alimentar, pelo sr. Claude Bernard nas suas lições e conferencias, pelo sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentação insuficiente, pelos srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud, Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua excellencia possuisse finalmente—ainda que no estado da mais ligeira tintura—alguma das noções em que se basea a theoria da cosinha, que é um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o seu voto n'esse caso poderia ter discussão.

A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este assumpto dá ao seu voto um caracter irrevogavel, que não pode infundir nos adversarios senão admiração e respeito.