Em paga de todos os favores, que lhe peço, prometto fazer-lhe só um, mas esse importantissimo.

Não dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o sr. Ramalho, senão julgal-o-hiam tão criminoso como quem maldiz dos seus.

Sua

Irmã de Caridade


Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que effectivamente é escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle é para nós de um valor inestimavel. Este folhetim é a mulher. Não somos já agora nós que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a retratar. É ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa acquisição da nossa galeria. Não somos nós que a descrevemos, que a phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um lapis suspeito de inhabilidade ou de má fé. Vêem que é ella mesma que apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores! queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a!

Ahi a teem! É assim que ella é. Não ha artificio, não ha preparo, não ha processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade mesma. Reparem bem, meus senhores, que não é Proudhon que a descreve, não é Coubert que a pinta, não é Offenbach que a põe em musica. É ella mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece.

O que estaes contemplando é a obra da direcção mental que nós mesmos imprimimos ao nosso tempo, é o fructo legítimo e authentico da philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de idéas que temos produzido e impulsionado: é a nossa mulher tal como nol-a fizeram os contactos da nossa convivencia—a escola, o jornal, o livro. Revêde-vos na vossa obra.

Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e de pó de arroz, de rhetorica e de chic, de doce d'ovos e de cuia, de recitação ao piano e de tacões Luiz XV, de collegio nacional e de cold-cream, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto.

Vede que lucidez de razão! que firmeza de criterio! que contensão de raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades intellectuaes a circulação facil e viva atravez da rede dos nervos encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente sã que tão vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira de pensar podeis ajuizar com segurança da sua forte maneira de viver. Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vós mesmo pelo que lhe ensinastes.