Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado á luz no cano do esgoto, tu que não conheceste pae nem mãe, producto espontaneo da grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre á superficie do pantano, tu que não recebeste baptismo, nem confirmação, nem ordem, nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem o céo e que a igreja confere por uma tarifa de preços superiores aos teus capitaes, tu, não tinhas no cemiterio de Lisboa senão um logar usurpado, roubado indignamente ás pessoas de bem. Estoiraste para um canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fóra dos sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. És como um cão. A tua natureza humana não é a da outra gente. A tua podridão não é a da cabelleira do sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu és uma besta. És peior ainda: és um impio. Vão conceder-te agora um quintal para ires para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor te fazem estes bons senhores em te não remetterem ás equarissagens para o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado, distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote, poderiam achar uma applicação pratica e decente. Poderias aspirar na tua outra vida a abotoar com os teus ossos as calças do sr. marquez de Avila e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que te destinam nada mais serás do que um eterno objecto de execração e de horror para os teus concidadãos. Quando passarem por cima da tua cova os homens sérios, a quem está promettido o céo sob a palavra de honra do padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspirão sobre a tua dissolução infecta. As mães passarão de longe, correndo, com os seus filhos pela mão, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas, entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-hão com as suas finas mãos pallidas e rezarão os esconjuros mais efficazes no fundo tepido dos seus ligeiros coupés. Assim com as abençoadas sepulturas dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dará os horrendos enguiços. E eu te affirmo que ainda havemos de vêr aquelles que eram cegos e que recuperaram a vista abraçando-se ás sagradas reliquias de um bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas vegetações malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus preverso! Finalmente serás detestado, abominado, execrado, maldito,—cem mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanças, pela cidade inteira.
E cuidas tu, miseravel, que poderás encontrar um dia na eterna justiça inviolavel a compensação d'este despreso systematisado, d'este rancor que é um regulamento municipal, d'este odio que é uma lei do reino? Como te enganas! O que tem de te succeder é irremissivelmente o seguinte:
No dia do juizo final tu ouvirás na profundidade do teu estrume o canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um anjo que desde o principio do mundo terá estado a recolher no pulmão para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos os bramidos do mar, todas as erupções dos vulcões, todas as quedas das catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovão e do raio. Não terás remedio senão acordar,—quer queiras, quer não—do teu pesado somno da materia bruta. Serás levado á revista do grande valle por dois ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-hão com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: «Vocemecê ha de ter a bondade de passar ali para a mão esquerda de Deus Padre porque é condemnado.» Tentarás escapulir-te, safar-te para a podridão de que tinhas vindo. Appellarás para o juiz supremo. O arbitro da eterna justiça inquebrantavel cravará em ti os seus olhos. Tu o verás tambem a elle, com a sua longa barba que envolverá toda a terra, o seu bigode de interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus dedos, chisparão os raios na amplidão infinita. Ouvirás a sua grande voz, cujas sylabas cairão na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dirá:—«Deram-lhe o baptismo? Não. Deram-lhe a confirmação? Não. Deram-lhe a penitencia? Não. Deram-lhe a absolvição da culpa? Não. Não lhe deram nada. O cherubim tem razão. Passe para a mão esquerda.» Então passarás para a esquerda. O teu anjo custodio abrirá um alçapão aos teus pés e gritará para baixo, para as profundidades do immenso vortice:—«Fogo eterno para um!» Depois do que, te tocára com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando o espaço como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella sombria feita de lama, até te submergires no tremendo abysmo, na punição eterna. E será por todos os seculos dos seculos, sem fim jámais.
Eis ahi tens o que te espera, segundo a religião do dr. Jardim e outros. Religião bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas mãos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos! Bem diversa da d'aquelles christãos da igreja primitiva, que assombravam Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do que os pagãos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do os conduzirem á sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E não resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os primeiros christãos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagãos pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o sacrificio bastava ser desgraçado. Por isso disia o imperdor Juliano que fôra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais contribira para o estabelecimenlo e para a propagação do christianismo.
Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vêr como s. ex.ª o ministro do reino resolverá os conflictos promovidos contra elle mesmo por s. ex.ª a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou—porque o digamos n'outros termos—a attenção do seu genio. Eis um dos casos sobre que pretendemos consultar s. exª:
Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas, não querendo enterrar-se de todo por uma só vez, resolvia enterrar-se por partes e dar á terra uma das suas pernas para a terra se ir entretendo.
N'esta hypothese pergunta-se:
Onde é que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha o capricho de descartar-me?