Em conclusão final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico outro não catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella é effectivamente catholica ou se não é catholica, acha-se no caso especial de não poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios, e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim não mandar o contrario.

Ora succede que todos os cidadãos portuguezes, sem excepção alguma, se encontram precisamente nas mesmas condições em que se acha a minha perna.

Não se póde affirmar que alguem é catholico ou que o não é emquanto a creação do registro civil não assegurar a cada cidadão a livre faculdade de exercer ou não qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem padre, morrer sem padre.


Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto ou quem suas vezes fizer—Paços da Camara na Praça Nova, esquina do Laranjal

Porto

Excellentissima camara e minha boa senhora. É cheio dos maiores cuidados pela preciosa saude de v. ex.ª que lançamos mão da pena para, em nome de todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasião da cerimonia inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex.ª algumas regras.

Principiaremos por dar a v. ex.ª uma breve noticia da festa em que tomamos parte e em que v. ex.ª teve as suas razões para não se dignar de comparecer.

Por convite da direcção da companhia dos caminhos de ferro portuguezes reunimo-nos na estação das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado pelas 11 horas da manhã. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, á entrada da nova ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que presenceamos desde Gaya até á estação de Campanhã e do qual procurarei, certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.ª!

Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de uma perola azul, abraça amorosamente a natureza e banhava a paizagem n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera maritima, salgada e humida, até os montes longínquos do lado opposto, levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisações do sol. Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em pignon como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos, reluzentes, forrados de faiança, outros barrigudos, sombrios enodoados, fazendo fincapé para não cambalearem como ebrios taciturnos; outros, ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de côr de rosa, com chaminés bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle, os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e murmurosas frescuras das quintas de Quebrantões, da Oliveira, da freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuração de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de torreões e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha venezianamente na agua.