A pacata bestinha da governação andou a monte por alguns mezes, choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos tacões do sr. Barros e Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre estadista e cavalleiro. Para onde é que s. ex.ª, coberto de zelo e de suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra?
—Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex.ª com uma das mãos na redea e com a outra mão sobre a carta constitucional.
Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha bambeavam dubitativamente a cabeça, e do alto das montanhas, com a mão aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam:
—Não. Para onde elle vae é para a senda de Cacilhas á Cova da Piedade.
E deixaram-o ir.
Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo, com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a orelha, baixando a cabeça, cravando os olhos sinistros nos cascos deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a perfidia das rãs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao abysmo,—sempre com uma das mãos na carta, mas já tem a outra mão na redea.
Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a cavalgadurinha do Estado principiou então a dar terra para feijões, retrocedendo para casa e bebendo o espaço com o freio nos dentes e com a saudade da mangedoura na alma.—Tão poderoso e fecundo é o ascendente moral que exerce o principio sagrado da ração sobre as actividades officiaes!