Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores, funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde os parapeitos até ao tecto.
Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traçada sobre o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado.
Serve de secretario, lançando apontamentos a uma larga folha de papel um individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar, publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de dôr—Alfredo Angelino. S. ex.ª traja rigorosmente de negro.
Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente encasados nos seus fauteuils. Não teem uma apparencia espirituosamente feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaço com a expressão passiva e tão caracteristicamente pacata dos individuos calidos quando instalados em decocções emolientes de alfavaca de cobra.
No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mãos sobre o coração, a outra mão alongada patheticamente no espaço, está orando.
Em torno do tribuno agrupam-se em pé varios representantes da Nação.
Uns roliços, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em amplas sobrecasacas pomposas. Sente—se que elles respiram com exforço. O abuso do feijão suffoca-os como o sangue de Danton suffocava Robespierre—São os empaturrados da coisa publica.
Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lívidas, os pés mettidos para dentro, as calças esbambeadas pelas joelheiras dos sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calças e que descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.—São os espinhelas cahidas do systema que felizmente nos rege.
No fundo escuro da bancada sobresaem da côr sombria dos vestuarios de inverno duas mãos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripção ou uma sentença de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz inoffensivamente, n'uma abstração magnanima.