—Sr. presidente—diz o orador, e a sua voz é pungente, elegiaca, lacrimejante—Sr. presidente! onde não ha religião não ha dignidade.

Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de cabeça.

Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade, estão ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade é uma resultante da religião. E todavia é a religião que obriga esse pallido mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplação, a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a submetter-se pela humilhação, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a resignar-se. E é pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz sanguineo e robusto a caminhar na direcção opposta á d'esse anemico, a constituir a familia, a luctar, a não perder tempo em contemplações e em extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as botas novas não caem do ceu cob a fórma de maná, caem unicamente do trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porém estão ambos de accordo emquanto á alliança indissoluvel da dignidade de um e da religião do outro perante o principio transcendente da rhetorica constitucional.

Diz mais o orador:

—«Sr. presidente!—e a entonação do tribuno continua a ser lacrimosa e pathetica—li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as investigações de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman inventando religiões para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo isto porem não apagou na minha alma a doce esperança que n'ella lançaram aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem porque elles serão consolados».

E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da camara:—«Muito bem! muito bem!»

Á morbida corrente intellectual do pessimismo allemão representado por Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppõe o naturalissimo de Darwin e as poderosas systematisações de Spencer, a França oppõe o positivismo victorioso de Augusto Comte e de Littré. Em Portugal, onde estas questões não foram nunca ventiladas senão por pobres escriptores desconhecidos em periodicos tão desconhecidos como elles, a camara dos srs. deputados ouve pela primeira vez a solução official d'esse debate. Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano, ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart Mill e de Littré, a intellectualidade portugueza responde mostrando a alma virginal do sr. Manuel d'Assumpção. E a comprehensão mais perfeita dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas crenças. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna não queria evidentemente senão uma coisa: apagar a esperança na alma d'este moço. Pois ficará sabendo que o não conseguiu. A camara dos deputados da nação portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno collocando-lhe em cima o sr. Assumpção e a esperança da sua alma, no meio dos applausos geraes de todo o parlamento.

E, não obstante, querem dizer alguns que a politica não é mais do que a applicação da philosophia á direcção pratica das sociedades.

A politica de Bismark é um grande poder social porque atraz d'elle está, como o peito pelo outro lado da couraça, a disciplina philosophica de Kant, de Hegel e de Hartman.

Danton, a alma da Revolução, era na esphera executiva o instrumento da philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o grande movimento cahiu com a cabeça de Danton, guilhotinado pela indisciplina mental.