Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um idéal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas instituições sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a derrocar pela pintura a inspiração da antiga arte assim como derrocou pelo uso do poder executivo a columna da praça Vendôme. Louvavel empenho, porque Courbet considerava essa inspiração uma fonte envenenada para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um symbolo ultrajante para a dignidade humana.

A demolição da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com palavras tão resentidas e acerbas, não poderá deixar de ser um dia olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos principios de justiça social constantemente professados pelo immortal artista.

Courbet foi condemnado a pagar a reconstituição da columna. Breve porém soará a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar puerilmente que se deve ser

Fier d'être français
Quand on regarde la colonne!

Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora, comprehenderá em pouco tempo que é uma injuria ao seu bello destino na obra da conciliação humana a ostentação orgulhosa de um monumento que o distico diz ser: levantado à gloria do grande exercito por Napoleão o Grande!!

Paris, qua vae na proxima exposição celebrar dentro do regimen republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo municipio acaba de votar 546 contos de réis para os seus estabelecimentos publicos de instrucção primaria ao anno corrente, Paris que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos á reorganisação dos seus lyceus, não poderá manter em pé por muitos annos mais, em uma das suas praças publicas, um symbolo que contradiz todas as suas aspirações philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores nodoas da civilisação: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os direitos do homem, a sujeição da França aos caprichos de um despota em cuja fronte as justiças da historia estamparam já o ferrete da ignommia.

A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradições marciaes da geração actual o sol de Austerlitz.

Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravará, ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendôme e pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que será uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na pratica dos seus actos a opinião do seu tempo.


Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico de Godofredo de Bulhões. Poderia como elle decepar de um só golpe da espada a cabeça de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como elle uma cruzada,—a cruzada de Novara até Roma, como elle chegou a terra promettida; morreu moço como elle, como todos os heroes que tendo realisado na terra uma grande missão, se sentem de repente invadidos na alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos fortes—a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes, mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos, atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmões mais rijos ás altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais encanto e com mais prestigio á fadiga, ao perigo, ás mulheres e á morte. Era evidentemente um forte. E como a força é o maior de todos os attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si tão contradictorias sympathias e tão heterogeneas affeições: foi o amigo do Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta.