Feliz homem!


A morte de José de Alencar, o auctor do Guarany e de Luciola, representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, tão notavel nos ultimos tempos pela cooperação dos seus poetas e dos seus pensadores.

Na sociedade do Brazil, que o principio da escravidão desviou por tantos annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a organisação moderna do trabalho livre é ao mesmo tempo a creação de um novo elemento social—o povo.

José de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e decide da sorte dos imperios.

Elle, que alcançára um dos mais luminosos logares entre os homens mais celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade, procedera da roda dos expostos.

Esse engeitado era a personalisação mais gloriosa da soberania do trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno da arte a sua larga espada de justiça, vestindo a tunica e a dalmatica azul, calçando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e fazendo-se ungir e sagrar pelas multidões como os antigos eleitos do senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante, que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: «Deus te elegeu para reinar sobre a sua herança e para livrar os povos das mãos dos seus inimigos.»


Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce consolação de cumprir um destino, consolação compensadora de tantas amarguras e de tantos sacrificios, não foi concedida na terra áquella natureza essencialmente desgraçada.

Tinha um incomparavel poder de applicação e de estudo e ninguem possuia em Portugal uma provisão mais copiosa de noções e do factos. Foi o collaborador do Alexandre Herculano nas investigações da historia nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos nossos costumes e das nossas tradições. Era archeologo, diplomatico, jurista, bibliographo. Não havia inscripção truncada na epigraphia nem texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresença de quanto tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e incessante. Era um tomo de erudição vastissima, assombrosa, que ninguem consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e da lingua.