Faltava-lhe porém no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da generalisação. Não sabia tirar dos factos as leis de que elles são a funcção. Não sabia correlacionar. Não tinha o poder creador. Por esse motivo a isolação suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulsão de energias concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle estava condemnado a submetter-se para ser uma força na civilisação, repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente aggravada por uma falsa educação.

Essa capacidade tão prodigiosa de contensão, de investigação, de exame, de absorpção de idéas, estava na sua natureza alliada a um temperamento caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na infancia, não poderia fatalmente deixar de ser o que era: um sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios da sua inquieta o attribulada existencia.

A indifferença perante o conflicto é uma nobre virtude. Raros a possuem. O que succede com as naturezas vulgares é que a nossa resolução bôa, conscientemente reflectida, reforçada na mais legitima compenetração do dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e nós precisamos de reagir sobre nós mesmos com toda a força da nossa coragem para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a explosão da crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado vamos lançar ao coração d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa virtude, tão rara, tão viril, de desmanchar implacavelmente prazeres para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho no estado de uma exageração pathologica. O conflicto na convivencia social não somente lhe não repugnava mas attrahia-o—como succede ás mulheres nervosas.

Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creança. As suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta pela mesma rasão de que ninguem teve egualmente a compaixão mais facil. Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas sessões da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior de Lettras não conheceram senão metade d'essa physionomia tão caracteristicamente meridional nos traços moraes como nas fórmas physicas.

Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os quaes aquella humilde casa de litterato, tão hospitaleira e tão pobre, tinha altractivos que não podiam propornionar ás exigencias dos philosphos e dos principes, os mais brilhantes salões de Lisboa. Era preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o nervosismo do seu coração com a mesma prodigalidade cem que nas assembléas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro imperfeitamente orientado.

Quando alludia á sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara alegremente a pé nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma esfolhada nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando descrevia as madrogradas da caça ás perdizes no monte de S. Felix, ou as outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo dançar pelos caminhos as bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros, aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe, negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em soluços, estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom sitio amado, uma velha canção querida.

Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi sepultado n'este medonho tumulo—o despreso.

Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou até o seu ultimo dia. Ha cerca de um anno padecia uma dôr sternalgica, symptomatica do aneurisma. Esta dôr lancinante, que o privava do movimento, forçando-o a parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se á pressa um medico. Inutilmente. Elle estava morto.

Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de acrescentar que a reputação tão frequentemente discutida d'esse traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos. O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipiões illustres e dos Catões celebres achem sempre nos seus heroes tantas qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica, quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela maledicencia.