O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta annos.

Ergueu-a do chão como morta, chuchada, espipada, moída pelas pégadas de duas gerações, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idéa Velha por uma ponta e pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot e levou-a comsigo á sociedade, onde a receberam bem. Cercáram-a varios outros não menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do que aquelle que a levantára do chão. Andou pelo braço de um e pelo braço de outro recebendo declarações de affecto e dadivas de amor. Mão tão dedicada quão firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, ás solemnidades publicas, ás casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na Grinalda e no Almanach de Lembranças; dedicou versos á Lapa dos Esteios, á Stoltz e á Novello e ao funeral da senhora D. Maria II; concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e ás Graças nas notas da versão portugueza dos Fastos. Foi da Assembléa da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do Gremio, que tomou o nome de Litterario para a receber e cujos socios affirmáram, para lhe serem agradaveis, o seu amor á lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou finalmente nas altas regiões officiaes. Foi aos paços dos nossos reis! De quando em quando observava-se que ella começava de repente a encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fôra insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinião, e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo á Idéa Velha. O poder moderador, com a sua real corôa na cabeça e o seu real manto ás costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico. Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes, achando-se tão chupados e tão desfallecidos como a propria idéa que eram chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa, choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias, tinham tido a honra de bufar à mesma idéa e pelo mesmo canudo que servira á primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembléa da Galocha e os empregados publicos do Gremio não o permitiam, e torcendo altivamente o bico das peras, diziam que a Idéa se não se podia pôr á mercê da populaça infrene e ignara. Vivendo assim á custa do sopro dos poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a Idéa, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoço a condecoração do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba, ajoelhou-se-lhe aos pés e propoz-lhe leval-a ás aras de Hymenen; ella porém, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas exclusiva do vate. Este, de pura dôr, pregou na parede um prego e suspendeu n'elle, por um laço de crepe, a theorba emmudecida e viuva.

Nos ultimos annos a Idéa Velha desapparecera do bulicio do seculo e da communicação das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube. Algumas pessoas devotas tinham-lhe já resado por alma. Soube-se agora, com grande satisfação dos que a conheceram no galarim, que a Idéa Velha ainda está viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares onde não ha outra idéa de dentro para o serviço da familia.


Os da Idéa Nova teem esta falha notavel: suppõem que a Idéa velha vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana, que prepondera nos destinos do mundo, E vêem-se moços honestos e engraçados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como se fosse uma força da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que ha meio seculo não passa do um artificio convencional e de uma superfetação litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em nenhum dos interesses do espirito ou do coração do homem no tempo presente.


O Primo Bazilio, novo romance de Eça de Queiroz, é um phenomeno artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta obra é preciso discriminar o que n'ella pertence á jurisdicção da arte e o que pertence aos dominios da pathologia social.


Eis a doença que este livro accusa:—A dissolução dos costumes burguezes.

O mais caracteristico symptoma d'esse mal é a falsa educação. A educação burgueza tem um defeito fundamental: mantém na mulher a mais terrivel, a mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte: No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos ver porquê.