Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a representação da vida exterior e o systema da vida intima.
Basta olhar de fóra para as casas, basta considerar o aspecto exterior do templo para se fazer uma idéa do que póde ser dentro o culto d'essa religião—a familia!
Comparem-se as nossas edificações urbanas, os casarões da baixa—rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias—com as graciosas construcções arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola, com o seu claustro interior, o poço de marmore ao centro do pateo, as galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o pequeno jardim, que é o coração da casa. Comparem-se com as sabias edificações modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos predios do bairro central de Lisboa ao pé dos novos predios de esquina de rua no Hanover. As novas casas allemãs no stylo gothico francez, modificado segundo as exigencias da civilisação moderna, são obras primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensão da hygiene, da moral, da estetica; são verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor systema de educação. Construidos exteriormente de tijolos de tres côres, branca, côr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraços cercados de hera, de estufas, de logettes, de aviarios em que se cantam os passaros, de balcões em que desabrocham as flores sempre frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de outros tantos ramalhetes, são interiormente distribuidos do modo mais elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos nobres prazeres da familia. A disposição mais escrupulosamente estudada do salão, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa luz e bom ar, permitte ás mulheres o saudavel prazer de girar na casa, activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.
As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona, parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguão sombrio e infecto, com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogão por baixo das caçarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema queimada, são os sepulchros da saude e da alegria.
É n'essa serie de prateleiras, de gavetões de familias, que se chamam os Arruamentos da Baixa, que é educada a lisboeta.
Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observação:
«Noto um facto que me enche de perturbação e de horror—n'esta cidade não ha creanças.»
Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas côr de palha, desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal, ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos squares do largo de Camões, da praça das Flores, do Aterro: lá encontramos effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas não encontramos uma unica creança, a cuja saude sua mãe se tivesse sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaço de tempo a sua preoccupação de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe fresco.
Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa frequentam as lojas ou fazem visitas, onde é que estão as creanças? As creança estão dentro das casas que acima descrevemos—a tomarem proposito. Tomar proposito é uma locução essencialmente local e intraduzivel, que quer dizer: aprender a não saber andar, a não saber rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A menina só principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito indispensavel para não tagarellar imprudentemente, para não contar que houve favas para o jantar ou que o papá ralhou com a mamã. Haver favas para o jantar e ralharem o papá e a mamã é de resto tudo ou quasi tudo quanto se passa em casa, porque não ha interesses de espirito, nem ha instructivas occupações praticas. Falta o jardim, a grande escola da infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores, e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as flores. Tambem não ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do jornal e os romances das traducções baratas. Nenhuma especie de estudo. Nenhuma applicação intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde aprende o francez e o inglez. Esta educação completa-se em casa ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educação são appendices de sua toilette: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das linguas, e a phantasia, o bonito trecho de salão tocado no piano diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua funcção sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Não leu ou não entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno, Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.
Não a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora completamente as leis que regem o universo e que determinam esses phenomenos.