O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condições, é o dandy. Porque o dandysmo é a unica fórma sob a qual a distincção se lhe apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres pensamentos terá para ella menos seducções do que uma cabeça bem penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por uma fina risca côr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de espirito, nenhuma delicadeza de coração, nenhuma virtude de caracter exercerá sobre a imaginaçãoo d'ella a fascinação com que a subjuga a alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, será aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver jantado nos mais celebres restaurantes do boulevard, o que se vestir e se calçar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em foie gras, em Champagne Clicot, e em Cold-creame.

Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos tapetes de Smyrna dos boudoirs forrados de setim, envoltos em renda de França, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando ás penetrantes essencias de Lubin e á febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pés d'ella, para lhe dizer obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia ás outras, amando-a finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do seu joelho desformado pela falta de circulação proveniente de um defeito caracteristico da sua raça, o defeito de não saber atar as ligas; apezar ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu espartilho barato, da sua toilette da Baixa, da sua pomada de botica e do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado nacional ... Se, apezar de tudo isso, tão desdenhoso, tão frio, tão gloriosamente corrupto, traçando a perna, descobrindo desleixadamente as suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes, encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade attenciosa e benevola as scintillações do seu correcto plastron de Poole, e as exhalações frescas e aromaticas do seu bigode e do seu cabello frisado á Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte não saberá negar.


Tal é o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro, medonho, tragico, sobre o qual Eça de Queiroz escreveu O Primo Bazilio, romance realista.

Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convicção social, e é esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo não tinha senão convicções esteticas, e satisfazia assim as necessidades de espirito da sociedade que fez a Revolução, que caiu no Imperio, que supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros não pediam á arte de 1830 senão uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas então cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradições gothicas da edade media e fizeram uma restauração litteraria e burgueza da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipação da forma mais profunda indifferença pela questões sociaes do seu tempo. Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas, atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos, phylanthropos.

A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. É uma sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os pontos da sua peripheria até as mais reconditas intimidades do seu ser. Esta reconstituição não se está fazendo empyricamente pela revolução ou pela sentimentalidade, está-se fazendo scientificamente pela convergencia harmonica de todos os esforços intellectuaes sobre o mesmo problema. Comprehendeu-se que são solidarios todos os estudos, os do mundo inorganico e os do mundo organico; que são correlativas todas as leis desde a da indestructibilidade da materia até a da evolução social; que finalmente se não póde chegar ao conhecimento positivo de nenhum phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle é o elo que prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.

N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tão estreita, que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer dos ramos da sciencia se reflecte na direcção de todo o trabalho mental em qualquer das suas manifestações, dando por exemplo a theoria zoologica da adaptação ao meio um methodo novo na critica,—n'esta liga, dizemos, a arte não póde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha trinta annos. Esse papel é-lhe imposto fatalmente pela nova orientação mental da sociedade. A arte moderna não póde já hoje basear-se em risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse e para que tenha a importancia de um agente da civilisação, em factos de caracter scientifico, isto é: em factos que sejam a funcção de leis sociologicas. Queremos factos, não queremos exclamações: Res non verba.

Foi da palavra res, tomada precisamente n'essa accepção litteral, que se tirou a designação realismo.

Chamar realismo ao que é puramente grosseiro, ao que é descarado, ao que é torpe, é calumniar o dogma. Uma obra de arte póde conter o maximo numero de torpezas e de obscenidades e não deixar por isso de ser simplesmente lyrica.

O Primo Basilio é um romance realista porque é a representação de um facto social visto atravez de uma convicção scientifica. Luiza, a amante do primo Basilio, é a personificação tremenda da tendencia morbida de uma epoca. E é n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser Luiza castigada (para nos servirmos da velha formula que via a moral dos livros no premio que n'elles se concedia á virtude e no castigo com que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte afflictiva é um facto accessorio, que não conteria senão esta moral negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:—que para evitar a morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as cartas.