A moral d'este livro não está em que a prima de Basilio morre depois da queda; está em que ella—não podia deixar de cair.
Reconhecemos que esta moral é pouco accessivel á maior parte das comprehensões. Esse é o grande mal do livro, ou antes esse é o grande mal da litteratura de que o livro faz parte. O Primo Basilio suppõe um estado de civilisação artistica e litteraria superior á que existe na sociedade portugueza. Suppõe manifestações parallelas nas applicações da philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construcções, na hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituições, na critica dos costumes, na propria critica da arte.
Ora essas manifestações não existem por emquanto n'um estado de vulgarisação que determine uma corrente harmonica no sentido a que se dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do Primo Basilio. A sociedade portugueza não comprehendeu ainda de um modo collectivo e solidario, que é urgentemente indispensavel por todas as manifestações do pensamento proceder á reconstituição da educação burgueza.
De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, á mulher nossa contemporanea: «Eis—aqui está o modo pavorosamente simples como tu te rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens»,—parece um insulto áquellas que são as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas companheiras de trabalho, as nossas mães, as nossas irmãs, as nossas filhas. Essa affirmação, porém, deixaria de ter um caracter apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:
«Eu não sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenço. Sou uma parte d'essa legião de trabalhadores dedicados, profundamente honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta ambição heroica:—tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na minha qualidade de artista, a ti mulher que me lês, o mais que eu posso fazer é commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado, com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereço-t'o eu tal como elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e meio forçado das galés, friamente calculador, sovina, absolutamente pôdre. E é esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito em preconceito, de erro em erro, és trazida, atravez de todos os elementos que constituem a falsa educação que te deram, a admirar e a proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu pertenço ha uma religião, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia, um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e convergentemente estarão n'este momento—no momento em que eu tenho a concepção artistica do Primo Basilio—actuando sobre todas as influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensão nova, assento em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. Á religião compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou demittir-se da solução do teu problema. Á politica, emprehender a reforma das instituições em vista do teu aperfeiçoamente. Á moral, fazer-te comprehender a noção da justiça. Á sciencia, o determinar com a maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a applicação d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. Á critica, finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porém, não me competia como artista senão uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha these, fazel-a viver na maxima elevação esthetica: porque meio? por meio da mais perfeita fórma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.»
Se com a natureza essencialmente artistica de Eça do Queiroz fosse compativel a humildade de uma explicação n'essas bases, o seu livro teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um artista tem a obrigação de se não explicar,—o que seria invadir uma funcção alheia na justa divisão do trabalho intellectual moderno. Ha um gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma religião do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim como o philosopho deve ser indifferente á theologia, o artista deve ser indifferente á opinião. Mas esta independencia da philosophia e da arte, se por um lado é a condição essencial da sua missão perante a pura arte e perante a pura philosophia, por outro lado ella é a principal causa de ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante a comprehensão dos espiritos e a satisfação das consciencias.
Taes foram as razões porque—ao terminar ha mez e meio a leitura do Primo Bazilio,—uma tão perfeita obra, que a consideramos como sendo uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve gloriar uma litteratura—nós fizemos esta prophecia: Que este livro seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados á observação dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da biologia, instrumentos inuteis—ás vezes perigosos—para todo aquelle que não tem a sciencia de os pôr em exercicio e de ver por elles a divina revelação de um novo mundo.
O Diario Illustrado, publicando o retrato e a biographia do sr. Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:
«Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas, exclamou:—Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta!»