No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,—no paiz em que Deus segundo Taine é um personagem official com os seus cortezãos e os seus aulicos,—no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da Providencia n'um discurso da corôa o chefe do estado fez novo discurso para prehencher essa omissão,—na velha, na religiosa, na solemne Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocução presidencial do Birmingham and Midland Institute, disse as palavras seguintes:
«Dir-me-hão que supponho um estado de cousas determinado pela influencia das religiões e comprehendendo os dogmas da theologia e a crença no livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e perverso sem esperança, o coração do homem, dir-me-hão que se fossem abolidas as sancções theologicas a raça inteira se modelaria por alguns exemplos de depravação individual. Tornar-nos-hiamos todos ladrões e assassinos. Porque é só o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o medo, não conheceriamos mais do que o instincto natural e desconheceriamos o dever.
«Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes conclusões. O scelerado não é em minha opinião a imagem da humanidade. Bebamos e comamos porque temos de morrer ámanhã não é a consequencia ethica da regeição dos dogmas.
«As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos são taes que nenhum christão se envergonharia de as professar, e nenhum christão as censura senão desde que conhece a origem de que ellas procedem.
«Reconheço de todo o coração e sou o primeiro a admirar a irradiação espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religião produz na vida de varias pessoas que conheço. Mas não posso tambem deixar de confessar que muitas vezes a relligião passa por estrondosas derrotas ao procurar produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeão da religião é frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenças procedem de distincções primordiaes de caracter que a religião é insufficiente para nivelar.
«Dá uma verdadeira satisfação o sabermos que existam no nosso gremio homens a que os batalhadores do pulpito chamam atheus ou materialistas e cuja vida, não obstante, experimentada na pedra de toque de uma moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designação offensiva.
«Quando digo offensiva quero simplesmente alludir aos que empregam aquelles termos, não que eu pense que o atheismo e o materialismo, comparados a muitas noções sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham em si um caracter offensivo.
«Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel á sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um cidadão justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tão firmes na morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles não esperavam a corôa celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tão zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto emprego dos seus ultimos momentos.»
Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes é christão, o outro não.
O christão é Faraday, que Tindal considera um modelo da associação da fé religiosa com a elevação moral. O seu caracter é o mais proximo da perfeição. A religião era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolação dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e, comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais delicada flor da cavalleria.