O que não é christão chama-se Darwin. Não tem o ponto de vista theologico nem a commoção religiosa que constituiam um tão poderoso agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeição moral de Faraday. «O sr. Darwin, diz Tyndal, é uma natureza candida e simples, um caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade; é o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tão docil ás ordens da verdade como o patriarcha antigo ás ordens do seu Deus.»


Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de verdade, de justiça e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente á cultura da intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma moral independente de toda a especulação theologica. Que fecunda these para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado presente dos espiritos, em que as convicções do homem estão geralmente em contradição com as crenças da esposa e da filha, e em que tão necessario se torna portanto á harmonia moral da familia o principio fundamental da conciliação das consciencias!


Na reunião do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da Haute-Saône, expõe com uma concisão profundamente lucida as causas que determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo, tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem escravisados pelos poderes clericaes.

Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho aos esforços do obreiro começa lentamente a operar-se: os trigos crescem. Crescem em virtude de que lei?

Tal é a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe respondem aquelles que são encarregados de o instruir e de o educar. A noção que elle recebe ácerca do modo como o trigo cresce torna-o fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e embair. Qual é o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio é ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador operario acrescenta:

«Faz-se geralmente crêr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se desenvolvem em resultado de uma força cuja paternidade vem de Isis, ou de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora é o deus de Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a amadurecer nas mesmas condições em que amadurecia n'outro tempo. A ruina dos successivos templos e das successivas religiões em nada tem alterado as leis da natureza. E todavia dá-se por toda a parte o mesmo estado de coisas: O indio crê que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim vê nos seus o grande Todo. Em outros sitios é Budha. Para os gregos e para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia é o grande Lama. Na Africa é a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.

«Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporações de sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ... Respondeis-me que é impossivel. É effectivamente impossivel, o que é de certo uma desgraça! Esse porém é o facto historico, que não podemos deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque sobre as questões que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas gerações.

«É a guerra, é a guerra de religiões. É tempo de lhe pôr um termo. É tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a legislação humana e a moral universal.»