Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestões de idéas e de principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras convicções de sciencia ou de simples bom senso são consideradas perigosas e banidas das discussões publicas.
Debalde a historia da civilisação ingleza n'este seculo nos demonstra que a tolerancia absoluta na manifestação do pensamento é a primeira garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia das idéas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa, evitando assim que a orbita das applicações praticas seja invadida pelos principios que não foram d'ante mão sanccionadas na opinião e pelas reformas que ella não exigiu em nome de novas necessidades provenientes de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal é o methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbações graves que a impaciencia dos reformadores, não experimentada na pedra de toque de uma discussão liberrima, lançou na vida pratica de outras nações, como succedeu em França depois do segundo imperio, que corrompia todos os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.
Em Portugal essa importante lição tem sido absolutamente esteril.
Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino mostraram uma ligeira tendencia para produzir idéas, o governo sem nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.
Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram manifestar posthumamente as suas idéas solicitando para os seus cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por todos os meios ao seu alcance—meios tumultuarios, illegaes, vexatorios—a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,—o atheu morto.
Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que expõem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepções theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia, a impunidade d'esses professores, dizemos, não se deve attribuir á tolerancia philosophica do poder. Ella é simplesmente o resultado—n'este caso benefico—da indisciplina geral dos serviços publicos.
Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais vergonhosos e mais crassos alheios á doutrina dos programmas. Ha lentes que estão acima da lei pela mesma razão que ha outros que estão abaixo d'ella:—por falta de inspecção e de policia.
Um facto recente dá-nos a prova mais cabal de que o estado não é solidario nos progressos scientificos da nação, e que estes se operam não sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se armam.
Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instrucção primaria!