Ha cem annos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira, para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissão do professor e o processo pelos tribunaes civis.
Inclinemo-nos diante de tão manifesta mansidão!
Nos fins do seculo XVI o pendão da santa doutrina, um lugubre pendão negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era então o professor idealisado pelo sr. conde de Rio Maior:era o homem de ordem, temente a Deus, argumentando a doutrina christã a este povo. Todas as mulheres e todas as creanças saiam ás portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pés do tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica, amortalhada de negro, de cruz alçada, tangendo uma campainha, como quem leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos methodos porque se mortificam os impetos da carne.
Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem os estudantes á missa, do que colhiam nas sacristias uma certidão sobre a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.
Hoje a parte disciplinar da nossa educação religiosa caiu com o pendão negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinária, resta apenas a cartilha de Padre Mestre Ignacio.
E é sobre essa cartilha solitária, em torno da qual caíram dissolvidas a uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma instituição civil, é sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o ensino publico de uma nação!
Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as Farpas não cessam de elevar aos céus em todas as manhãs e em todas as tardes:
Meu Deus, tornae ridículos os nossos inimigos!
O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da instrucção indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa oração. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das Farpas, um círio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!