Eis ahi o que se não admitte, porque esta disposição legislativa proposta por s. ex.ª produz a fixação legal dos seus principios a respeito da instrucção, isto é: que deve haver instrucção e ao mesmo tempo que a não deve haver. Não é outra coisa senão eliminar a instrucção, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena de processo e demissão immediata do professor, aos principios da religião catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tão profundo abysmo entre a concepção theologica e a explicação scientifica dos phenomenos do universo, que toda a conciliação é hoje impossivel entre o mestre e o padre. Não duvidamos que o christianismo possa ainda reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes e definitivas conquistas do entendimento humano. O que é certo porém é que a direcção reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano desde a Reforma até hoje o inhabilita presentemente para realisar essa aspiração de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois interesses oppostos é impossivel. Pedimos licença ao sr. conde do Rio Maior para lh'o provar.

Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que é o diluvio universal, que lhe pergunta qual é a idade da terra, que lhe pergunta o que é o homem pre-historico, o que são as florestas carboniferas, o que é o arco-iris, o que é o pára-raios, o que é transformação das especies, o que é a Torre de Babel, o que é o Eden; supponhamos que o alumno faz ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de formular ácerca das affirmações da Biblia ou dos conhecimentos do homem. A essas perguntas o mestre não póde responder senão com o erro ou com a heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptáram a sua emenda á lei da reforma da instrucção portugueza desejam que o mestre responda pelo erro.

Mas isto é peior do que pôr de parte a sciencia; isto é, recebel-a para a contradizer e para a destruir; isto é converter a ignorancia publica em uma instituição do Estado.

Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, á luz de uma lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E apagou-lhe a lanterna.

Quem foi que deixou no mundo esta lição?

Foi o theologo.

Um povo ignorante é um povo em trevas, cuja lanterna é a instrucção. O legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz é o sr. conde de Rio Maior.


Notemos porém um facto consolador:

O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma sensivel diminuição de força. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente de um velho sangue que se decompõe e se dessora. A idéa que elle tem no cerebro é uma idéa que se extingue.