Se porém a todas estas considerações for insensivel o sr. Vaz Preto, n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo: Velar-lhe a face!
A Nação publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: O padre cego já vê, a paralytica já anda.
Parece impossivel que uma folha religiosa como a Nação désse cabimento nas suas columnas um milagre tão miseravel, tão safado, tão reles como esse! Com effeito! foi então para isso, para esse milagrotesito de cácárácá, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos, foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice, que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para os fazer ver e para os fazer andar os levou tão longe?! ... Ora muito obrigado! muito obrigado pelo seu favor!
A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que collaboráram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinação teem obrigação restricta de abrirem immediatamente uma subscripção para o fim de indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que lhes deram. Porque nós—e a Nação bem o sabe!—nós temos devoções locaes, temos devoções ahi da Baixa, que nos affirmam e affiançam, sob a auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos resultados obtidos pela romagem.
Pois quê! A agua de Lourdes ao pé da bica, na propria gruta, por conta e na presença da santa, não ha de dar mais effeitos no consumidor do que a agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas vezes impuras, quantas vezes com más rolhas?!
Não vimos nós ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa locomotores com agua das latas?!
E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento para se metter ás estradas e para ir por ahi fóra em braços até Lourdes, chega lá e não obtem mais nada senão o que obteve a outra sem sair do largo de S. Roque?
E ainda ousam dizer-nos—o que não póde ser senão por escarneo—que ella andou!? Olha a grande façanha—andar! Mas, senhores, tendo tido trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era correr, correr a sete pés, e trazer de lá para esse fim cinco pernas a maior do que as que levou!