Que é que se tem feito no espaço de dois annos decorridos desde o centenario até hoje para o fim de encaminhar as ideias no sentido d'essas soluções?


Fundou-se a associação dos escriptores com trezentos e cincoenta associados, dos quaes trezentos e quarenta, pelo menos, não são escriptores, porque se não póde com precisão technica dar esse nome aos individuos que por meio das letras não cultivam uma sciencia, uma philosophia ou uma arte. As letras só de per si são puramente um meio. Todo o pretendido escriptor que não tem dentro um sabio, um philosopho ou um artista, não é bem um escriptor, é um escrevente, e isto ainda na hypothese de que tenha orthographia e boa lettra. Faltando-lhe esses dois predicados nem escrevente é, é um esvasiador de tinteiros em prelos e de prelos em papel de impressão, o que verdadeiramente se deve chamar um troca-tintas, apenas.

N'esta associação dos escriptores começou um socio, professor de instrucção primaria, por annunciar um curso de leitura para analphabetos. Como epigramma a si mesmos devemos confessar que é este o mais espirituoso que os litteratos reunidos teem botado aos quatro ventos do seculo.

Os snrs Consiglieri Pedroso, Adolpho Coelho e Joaquim de Vasconcellos teem feito na sociedade dos escriptores prelecções importantes sobre historia universal, sobre linguistica e sobre critica d'arte. Cremos porém que estes bellos e desinteressados serviços á sciencia tanto poderiam ser prestados por aquelles cavalheiros na sala da associção dos escriptores como na sociedade Luz e Caridade ou na de Maria Pia, Protectora dos Portuguezes,—nova coisa que os do Porto abriram agora á gargalhada do mundo e á necessidade que os protegidos sentiam n'aquella cidade de jogar a bisca juntos sob a egide d'uma mesma princeza.

Como corpo collectivo a associação dos escriptores tem evitado toda a especie de contacto com o movimento social ou com os interesses intellectuaes da classe por meio de um melindre de sensitiva e de uma pudicicia de vestal velha.

Na qualidade de corporação registrada no governo civil e com estatutos approvados pelo governo, os escriptores teem apenas produzido luminarias, dois jantares, um passeio fluvial e algumas assembleias geraes.

Em vista de tal esterilidade, os dramaturgos, bem avisados, separaram-se ultimamente da corporação e fizeram panella á parte.

Estreitados por este novo vinculo e aguilhoados em suas imaginações pela paixão ardente das artes scenicas, os escriptores dramaticos não principiaram ainda a primeira peça feita em collaboração ou separadamente, mas vão já no quarto ou quinto jantar mensal comido de sucia. Bom appetite para o resto de carreira tão briosamente encetada é o que do fundo d'alma desejamos a estes espirituosos filhos de Melpomone.