Muitos outros exemplos se poderiam acrescentar aos que são referidos por Spencer.

Os mais complicados problemas sociaes, como o do augmento da riqueza, e o do augmento dos braços, são resolvidos no fundo de uma officina por simples trabalhadores.

O metallurgista Bessemer por meio da fabricação do aço dota as nações civilisadas com uma economia de dinheiro que o Scientific American calcula sobre bases precisas, somente com relação á producção do aço bruto, na quantia de noventa mil contos por anno. Tomando em conta o excesso de duração, adquirido nos artefactos pela substituição do ferro pelo aço, e devido á invenção de Bessemer, a economia realisada pela Grã Bretanha unicamente, na duração dos rails dos caminhos de ferro, eleva-se a um rendimento de quinhentos e sessenta e cinco mil contos. Qual é a medida governativa que jamais produziu um tal resultado?

Em 1781, no mesmo anno em que o marquez de Pombal exclamava: Agora é que Portugal vae á vela, Watt descobria a applicação do vapor. Decorreu apenas um seculo depois da invenção do vapor applicado ao movimento de uma arvore de rotação, e as ultimas estatiscas do snr Bresca mostramnos que, somente em França, a força productiva inventada por Watt se acha representada por um milhão e cem mil cavallos de vapor. Calculada em doze homens e meio a paridade de força de cada cavallo de vapor, temos quatorze milhões d'homens correspondentes ao milhão e cem mil cavallos. Esses vintes e oito milhões de braços d'aço, trabalhando mais do que outros tantos milhões de braços humanos, auguentam a força muscular da França, pela dadiva de um simples e modesto operario, em quantidade muito maior do que a força destruida nas guerras pelo imperador Napoleão.

O problema scientifico, n'este momento em resolução, da transmissão da força pelos conductos pneumaticos e pelos fios electricos; põe a catarata do Niagara ao serviço do trabalho universal, e segundo uma memoria do snr Siemens apresentada recentemente ao Iron and Steele Institute, só a força do Niagara é superior á de todo o carvão que hoje se queima no globo, se todo elle fosse exclusivamente empregado em produzir trabalho.

Os homens que mais reconhecida e decisiva influencia teem tido nas reformas economicas e sociaes do nosso tempo não são nunca os homens d'estado, mas sim os homens d'estudo, simples jornalistas como João Baptista Say e Carlos Dunoyer, um obscuro cirurgião como Quesnay, um modesto professor como Adão Smith.

Aquillo que se chama propriamente um governante não é mais que o resto anachronico de uma velha liturgia hoje extincta. O vulto grosseiro d'esse dictador que se chamou Sebastião José de Carvalho, levantado em triumpho como um symbolo de progresso e de liberdade, com a sua cabelleira de rabicho, com os seus autos do Tribunal da Inconfidencia e os seus cadernos da Intendencia da Policia debaixo dos braços, faz-nos o effeito de um velho monstro paleontologico, desenterrado das florestas carboniferas e reposto, com palha dentro, no meio do espanto da flora e da fauna do mundo moderno.

Que significa uma similhante festa dos filhos da liberdade ao representante do despotismo? Que sentido absurdo se pode ligar no fim do seculo XIX a esta nova e inesperada Declaração dos direitos do governo, depois que a Revolução Franceza nos fez presente a todos nós da Declaração dos direitos do homem?

Desde 1789 até hoje todos os esforços dos povos cultos teem tendido precisamente a enterrar o principio que nós resuscitamos com a apotheose solemne de um estadista. Todo o immenso trabalho da reconstituição social durante este seculo tem consistido para todos os homens livres em negar aquillo que a memoria do marquez de Pombal affirma, em eliminar a acção do estado sobre os actos dos individuos, reivindicando sobre os restos das velhas tyrannias auctoritarias todas as liberdades proclamadas pela Revolução, a liberdade de imprensa, a liberdade de cultos, a liberdade de ensino, a liberdade de associação, a liberdade de reunião, a liberdade de commercio, a liberdade de industria, a liberdade de trabalho.

A personalidade de um estadista da escola do marquez de Pombal representa a negação expressa de todas essas liberdades, representa a revivescencia do antigo despotismo monarchico, a coerção do homem sobre o homem, quando o que todos nós pedimos desde Danton para cá, em nome da dignidade da especie, rehabilitada pela sciencia na posse de si mesma, é o livre exercicio da acção do homem sobre a natureza.