Esta circunstancia destroe em grande parte o intuito patriotico que geralmente se lhe alttribue de pretender, n'um ponto de vista nacional, reformar e reconstituir a sociedade portugueza dissolvida por duzentos annos de despotismo monarchico e catholico. O arrojado ministro do rei D. José era apenas um reformador de segunda mão. Como revolucionario a sua carreira é de pé posto no circulo feito em torno das realezas estremecidas por todos os dictadores que se haviam seguido a Richelieu no governo das monarchias modernas.

As reformas de Pombal não são o producto puro de um talento pessoal mas sim os ultimos effeitos de uma corrente contagiosa de ideias, ao tempo d'elle quasi todas já envelhecidas e refutadas.

O que elle representa na civilisação não é a personificação de um genio mas sim o advento de um novo poder, que o enfraquecimento das raças reinantes tornava necessario, que então apparecia pela primeira vez e que Auguste Comte denominou o poder ministerial.

Este facto exprime um consideravel progresso politico, de que Pombal é a funcção. O estabelecimento do poder ministerial é a reversão, ao valor, da auctoridade até ahi adstricta ao nascimento.

Antes de assumir a dictadura em que o investiu o rei D. José, Pombal viajara, residira como embaixador na Inglaterra e na Austria, convivera com homens de espirito iniciados nas ideias da philosophia franceza, mas nem da revolução intellectual da França nem da revolução economica da Inglaterra elle comprehendeu o mechanismo. Unicamente os processos da politica austriaca, de uma meticulosidade italiana e de um rigor allemão o penetraram inteiramente.

A imperatriz Maria Thereza, que envolvida nos mais altos negocios da politica internacional europeia funda commissões de castidade para salvaguardar as esposas das infidelidades maritaes, sem que todavia isso a empeça de escrever epistolas ternas a Madame de Pompadour, amante de Luiz XV, dá bem o modelo da politica pombalina, policiando tudo no reino desde os primeiros segredos da diplomacia até aos ultimos mysterios das alcovas.

Na côrte de Vienna encontrou o marquez de Pombal, em elaboração, as ideias que pouco depois deviam constituir o programma politico do imperador José II, cuja impetuosidade de caracter Maria Thereza procurara conter em quanto viva e cujos projectos de reforma eram tão similhantes áquelles que o marquez realisou em parte como primeiro ministro na côrte de Lisboa.

Abolição da escravidão, do direito de primogenitura, dos dizimos, da caça privilegiada; reconhecimento dos judeus e dos protestantes como cidadãos; todo o cidadão considerado capaz de alcançar qualquer emprego; suppressão dos conventos inuteis transformados em hospitaes e em estabelecimentos de instrucção; desenvolvimento das universidades e das academias; protecção das pautas á industria nacional: tal é a parte do programma de José II que o ministro portuguez procurou pôr em execução no seu paiz.

Mas José II ia um pouco mais longe, e a declaração completa da sua politica ao subir ao throno, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo em que Pombal cahia, mostra-nos que este não aprendera inteiramente a lição que as suas convivencias e os suas ligações austriacas lhe haviam ministrado.

O imperador José II declarou que reinar sobre homens livres era a sua unica paixão como rei. Pombal, preoccupara-se pouco, com a liberdade conferida aos cidadãos que governara. Esta differença fundamental entre o reformador austriaco e o reformador portuguez reflecte-se na obra de cada um por meio dos effeitos mais expressivos.