SUMMARIO
A patria portuguesa e os quatro milhões d'egoismos de que ella consta—Presente estado das ideias—A religião—A politica—A moral—A arte—Sentido historico do centenario de [Camões], sua influencia e seus resultados—Dois annos depois—A celebração do centenario do Marquez de Pombal considerada como symptoma psychologico—Do estadista em geral e do Marquez em particular—Addusem-se razões e testemunhos insuspeitos para o fim de provar que o estadista é um agente secundario entre os acceleradores do progresso, e que o Marquez de Pombal é um individuo secundario na classe dos estadistas—Buckle, Guizot, Bastiat, Begehot, Herbert Spencer, Wechniakoff, Auguste Comte, Michel Chevalier, e outros—Demonstra-se que o Marquez de Pombal exprime a negação de tudo aquillo que a liberdade affirma e que a democracia proclama—Coerção da agricultura, coerção da industria, coerção do commercio, coerção dos direitos civis, coerção do pensamento—Arruamento geral de todas as actividades nacionais pelo systema quadrangular da reedificação da Baixa.—[Secularisação do jesuitismo] na pessôa do mesmo Marquez—A estatua de Sebastião e o monumento do Terreiro do Paço—Parallelo do [cavallo e do cavalleiro]—Pede-se o esquecimento para um e uma charrua para o outro.
Asociedade portugueza n'este derradeiro quarteirão do seculo pode em rigor definir-se do seguinte modo:—Ajuntamento fortuito de quatro milhões d'egoismos explorando-se mutuamente e aborrecendo-se em commum.
Chamar patria á porção de territorio em que uma tal aggregação se encontra seria abusar reprehensivelmente do direito que cada um tem de ser metaphorico. O espaço circumscripto pelo cordão aduaneiro, dentro do qual sujeitos acompanhados das suas chapelleiras e dos seus embrulhos ou tomaram já assento ou furam aos cotovelões uns pelo meio dos outros para arranjar logar nas bancadas, pode-se chamar um omnibus—e é exactamente o que é—mas não se pode chamar uma patria. A patria não é o sitio em que nos colloca o acaso do nascimento, á mão direita ou á mão esquerda de um guarda da alfandega, mas sim o conjunto humano a que nos liga solidariamente a convicção de um pensamento e de um destino commum.
Já um sabio o disse: Ubi veritas ibi patria. A patria não é o solo, é a ideia.
Para que haja uma patria portugueza é preciso que exista uma ideia portugueza, vinculo da cohesão intellectual e da cohesão moral que constitue a nacionalidade de um povo.
Sabem dizer-nos se viram para ahi esta ideia?...