Para o ministro do rei D. José não havia senão uma opinião—a d'lle, e o publico não era mais que uma grande massa passiva e bruta, que elle se julgava destinado a modelar sob vários aspectos mettendo-a em formas, como se faz aos pudins.

Derivando todas as liberdades da pessoa do rei, elle recalcou sempre pelo terror todas as revindicações de independencia collectiva ou pessoal. Nunca nos estados modernos da Europa o despotismo assumia um caracter mais cruel, mais sanguinario mais implacavel que o do regimen pombalino em Portugal. Proudhon diz que a tyrania está sempre na rasão directa da grandeza da massa dominada. A administração do reinado de D. José é uma excepção a esta regra. Em tão pequena familia tão grande oppressão como aquella de que a sociedade portugueza deu o espectaculo durante o ultimo quarteirão do seculo XVIII foi o espanto e o horror do mundo civilisado.

A tremenda catastrophe do terramoto lançara o panico, o horror, a confusão, o desequilibrio em todos os espiritos, em todas as relações sociaes, em todos os interesses economicos. A catastrophe nacional derivada d'essa revolução geologica prepara o advento da dominação pombalina, assim como o terror na revolução franceza prepara o advento da dominação napoleonica. Em França como em Portugal a sociedade havia perdido sob o golpe de uma desgraça esmagadora a faculdade de resistir. No meio do desfallecimento geral que por algum tempo se succedeu á violencia da crise, Pombal pretendeu reconstruir a sociedade perturbada exactamente pelo mesmo processo por que reconstruiu a cidade em ruinas: ao esquadro e á regua, como um pedreiro cabeçudo e valente, tomando a symetria pela ordem; sem respeito algum pela dignidade das ideias e dos sentimentos; sem a menor noção da elevação e da belleza moral; sem arte, sem graça, sem elegancia, sem gosto; n'uma feroz teimosia de omnipotente sapador, alinhando, razoirando, espalmando, achatando, estupidificando tudo. São os brutaes arruamentos quadrangulares da Baixa prolongados a toda a área da ordem social.

De cima a baixo, de norte a sul, de este a oeste, tudo arruado! Para ali os algibebes, para ali os professores, os bacalhoeiros, os poetas e os capellistas; para acolá os retrozeiros, os latoeiros, os artistas e os philosophos. Para os sapateiros aqui estão as formas; para os philosophos aqui estão as ideias, para os retrozeiros aqui estão as linhas; para os artistas aqui está a natureza, a sensibilidade, o temperamento e a paixão.

Elle só gisa, mede, talha, corta, almotaça, esposteja, aquartilha, taberneia, baldroca, amesinha e a apilula tudo,—o arroz, o vinho, a manteiga, o bacalhau, o briche, o oleo de ricino, o ensino publico e particular, as missas, a poesia, a architectura, a musica, a esculptura, a philosophia, a historia, a moral e a canella.

A cada um o seu regulamento e o seu arruamento, com quatro forcas e com duas mas, direitas, parallelas rectilineas, vindo todas dar á grande praça central com a besta de bronze ao meio, sustentando em cima, vestido á romana com um sceptro na mão, um pulha inepto, de bronze para pensar, de cebo para resistir.

Nos patibulos, que servem de signos geodesicos á triangulação do systema, nunca durante dez annos deixou de pernear alguem para recreio do principe e escarmento dos subditos.

Toda a reclamação, ainda a mais moderada, contra medida promulgada pelo omnipotente ministro era considerada crime de lesa-magestade e d'alta traição.

O supplicio dos Tavoras e do duque de Aveiro e o auto de fé do padre Malagrida são monstruosos de mais para que façamos d'elles argumentos de historia. A ferocidade levada a um tal requinte deixa de pertencer á critica; está fora da historia assim como está fora da humanidade: é uma reversão ao canibalismo, cujo estudo compete á psychologica pathologica.

Explica-se geralmente pela necessidade politica de abater e de humilhar a nobreza esse processo caviloso e infame, em que o ministro de D. José é ao mesmo tempo juiz e parte, e em que os réus são julgados sem defeza e sem exame de provas sob a accusação de uma tentativa de regicidio, em que hoje se sabe achar-se completamente innocente a familia Tavora; assim como estava innocente o marquez de Gouveia, exhautorado do seu titulo, officialmente infamado e encarcerado nos carceres sem ar e sem luz do forte da Junqueira desde os dezoito annos de idade até os trinta e sete; assim como estavam innocentes o marquez d'Alorna, encarcerado no mesmo forte: a marqueza d'Alorna e as suas duas filhas, presas no convento de Chellas; D. Manoel de Sousa Calhariz, avô do duque de Palmella, encarcerado na Torre do Bugio, onde morreu; e a infeliz duqueza d'Aveiro, a qual, depois de sequestrados todos os seus bens, perseguida até o seu ulliino suspiro pelo ódio do marquez de Pombal, morreu no convento do Rato, servindo a cosinha das freiras como creada de pé descalço.