Os escriptores d'esta classe acceitam docilmente tudo quanto se acha em vigor no regimen vigente para não terem o incommodo de inventar nem o desgosto de se comprometterem com as familias particulares ou com os poderes publicos por meio de novas exhibições, aliás inuteis para a marcha regular do intellecto lusitano atravez dos meandros macadamisados da Baixa.
Elles vão para as glorias da posteridade, assim como os gatos para as aventuras de telhado,—pelo cheiro uns dos outros. Quando lhes não fareja outro que tivesse passado primeiro, hesitam em sua marcha, tremem-lhes as pernas, e acocoram.
Teem convicções profundas ácerca de tudo aquillo de que estavam profundamente convencidos os seus maiores, e a sua vocação, irresistivel e indomavel, é para fazer tudo o que já está feito.
Em religião são catholicos apostolicos romanos; em politica são monarchicos liberaes; em philosophia são ecleticos da escola do grande Cousin; em litteratura são pelos modelos classicos modificados pelo estro dos grandes mestres pacatos da geração moderna, Mendes Leal, Thomaz Ribeiro, Possydonio da Silva e Brito Aranha; em toilette são pelo afamado Keil; em theatro pela grande Emilia das Neves; e em culinaria pela lampreia d'ovos de fio com cidrão.
Teem ás vezes graça, mas sempre fina, de luva branca, propria de cavalheiro culto, com uso de sala, dentro do campo da civilidade e nos limites da carta. Ha no vocabulario innumeras palavras, aliás perfeitamente boas e honradas, que elles morreriam mil vezes antes que ousassem escrevel-as. Por exemplo: Com relação ao logar em que a hypocrisia costuma receber os pontapés que o bom senso lhe applica, nenhum d'esses escriptores domesticados diria com simplicidade casta—o trazeiro. Porquê? Porque, pela muita pratica de salão que elles teem, sabem perfeitamente que as «madamas», ao ouvirem um tal vocabulo, immediatamente se retiram fugazes das assembleias tirando por conclusão do emprego d'esse substantivo masculino que o cavalheiro é cynico.
Em compensação ha outros termos—os termos proprios de sociedade, que elles nunca empregam sem os ampliarem por meio de adminiculos decorativos. Quando escrevem natal, acrescentam sempre—do Redemptor, e para cabeças dizem as louras cabeças, sempre que ellas sejam de creança; sendo de vitella, ainda que egualmente louras, retiram-lhes o adjectivo para o não sevandijarem com os contactos incivis do gado vacum.
O publico derrete de justo enthusiasmo por estes escriptores mansos, que, á similhança dos elephantes ensinados, estendem a tromba para o regaço das familias, em procura do biscoito caseiro com que a gratidão humana folga sempre de remunerar os carinhos dos pachidermes doceis.
Os nomes d'elles nunca se imprimem senão enrabichados a um epitheto obsequioso: o sympathico, o festejado, o modesto, o cordato, o bom. Apesar do quê, pouca gente os lê, por que esses bons rapazes de profissão, modestos por modo de vida, para o fim de evitarem o conflicto de opiniões contrarias, embiocam-se frequentemente de mais n'um genero de litteratura abstracta ou de litteratura retrospectiva, que é a mais anodina, a mais sôrna, a mais bestificante coisa por meio da qual um escriptor pode actuar sobre o somno dos seus contemporaneos.
Se são profundas e insanaveis as nossas dissidencias religiosas, e as nossas dissidencias politicas, são ainda mais insanaveis e mais profundas as nossas dissidencias estheticas.
Estamos tão separados uns dos outros pelas nossas convicções e pelas nossas crenças como estamos separados pelos nossos gostos. Os mesmos artistas, os nossos poetas, os nossos musicos, os nossos pintores detestam-se reciprocamente por odios figadaes, de folhetim e de escola. Estes odios, mal reprimidos nas conveniencias mutuas da camaradagem, rebentam de momento a momento, periodicamente, em brigas renhedissimas, que são um dos mais decisivos symptomas da decadencia e da dissolução do meio intellectual. Temos d'anno em anno como outras tantas vegetações do charco a questão dos poetas, a questão aos jornalistas, a questão dos pintores, a questão dos musicos.