Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano, se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:

Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não têem os povos egualmente?

Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante museu da Via Lactea,—julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis como os reis choram pelos seus bons subditos?

Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz a queda de um honrado cidadão que morre?

Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:—é perfeitamente a mesma coisa!

Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que acaba de passar o seu coração generoso e paternal!

Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes, quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que proclama—Real, real, real, por el-rei de Portugal,—a alma do povo póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e das proezas do tiro ao alvo.


Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que—tendo em vista, os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade, tanto no coração do povo, como no coração dos principes,—sua magestade se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.