Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette.
O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados raivosamente pelos pontos.
O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e o collarinho esverdinhado de transpiração.
O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia, escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas, as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas convulsões da bronchite.
A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete, ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet. Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir d'ali embora sosinho.
Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o Chico ... não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado no hotel do Romão, intitulado da Boavista.
Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.
A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.
Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um sovaco.
—Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!—explicou-me elle com voz estrangulada.