Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:

—Mato-o, sim senhor!

Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das cartas 3$000 que tinha posto.

O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso que comprimia nos dedos.

A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.

Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma parada egual á minha.

Esta decisão da sorte—eu o confesso—não me regosijou senão de um modo bem caracteristicamente mediocre.

Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,—somma recebida n'esse mesmo dia.

Fiquei na batota até pela manhã.

Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã pautava luminosamente d'azul.