No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa, sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro circulos concentricos.
A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas, adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das apostas.
Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas, particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em que scintillava um olho de gato e um rubi.
Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas que tinha mais proximo de mim.
Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia, para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno, segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas cartas que em seguida sahia do baralho.
Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.
De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei 100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o trez de espadas que se achava na mesa.
Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a direita ou para a esquerda das cartas.
O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:
—Mata o rei?