O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao desafogo de alguns commentarios.


A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica. Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D. João v.

Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo—dos ferros-velhos.


É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha o typo da mesma emphase cezarea que o imperial parvenu aprendera na convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.

Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.

O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de fornecedor privilegiado de Luiz XIV.

Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.

Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas, alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.