Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta quanto talvez ephemera.
Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance, sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe, definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.
Que os adelos se barbeassem deante das elegantes psychés das Maintenon e das Pompadour, e que almoçassem nas taças pâte tendre, das Dubarry ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e bem dissolvente!
Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque—comprehendem bem esta nuance—agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!
Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que foi victima o mais bello gato de sua magestade!
Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire, contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da real camara a raparem-o á escovinha.
Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja, sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.
O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais abstinentes e mais respeitosos, o camareiro—dizemos—acceso em zelo pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!