—Mas então,—obtemperou o sacerdote romano—o systema governativo, de cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça mais divertida (la piu piacevole) que se conhece! O pundonoroso luso da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho e snr, agora, o vereis!
—Farça! bradou s. ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. —Farça! O forasteiro ousa chamar farça ao sublime governo constitucional, monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de Magalhães, cognominado por antonomasia o Deus da Palavra!!... Cuidará então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!... Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a sua famosa vinha do senhor:—Vimos da vinha do senhor! Vamos para a vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor! Suppoem os snrs porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se a si mesmos sal da terra; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?... Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de Garcia Diniz ou sobre os artigos da Nação para que essas producções literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim?
Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso, que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s. ex.ª, e experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.
Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se passaram. Lemos porem no Diario de Portugal uma phrase reveladôra, que se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada folha:
O nuncio desacatou sua excellencia.
Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos periodicos ministeriaes.
Sua excelencia—segredam as vozes familiares da burocracia—apanhou um calor.
Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por occasião d'este jubiloso successo.