Os principes não constituem excepção a esta lei geral da formação dos homens. Da educação de gabinete, do bafo enervante dos mestres, dos camareiros e das aias, nunca sahiram senão doentes e pedantes.
Na sagração dos czares ha uma ceremonia de alta significação symholica: o imperador não se confirma em quanto por tres vezes não haja descido do throno e penetrado só na multidão; e isto quer dizer que na convivencia do povo a auctoridade e o valor dos monarchas recebe uma tão sagrada uncção como a da santa chrisma.
Todos os reis fortes se fizeram e se educaram a si mesmos nos mais rudes e mais hostis contactos da natureza e da sociedade humana.
Veja vossa alteza Carlos Magno, que só aos quarenta annos é que mandou chamar um mestre para aprender a ler. Veja Pedro o Grande, do qual a educação de camara começou por fazer um poltrão. Aos quinze annos não se atrevia a atravessar um ribeiro. Reagiu emfim sobre si mesmo pela sua unica força pessoal. Para perder o medo aos regatos, um dia, da borda de um navio, arrojou-se ao mar. Para se fazer marinheiro começou por aprender a manobra, servindo como grumete. Para se fazer militar começou por tambor na celebre companhia dos jovens boyardos. E para reconstituir a nacionalidade russa começou por construir navios, a machado, como official de carpinteiro e de calafate, nos estaleiros de Sardam. Também não teve mestres, e foi comsigo mesmo que elle aprendeu a lingua allemã e a lingua hollandeza. Veja vossa alteza, emfim, todos aquelles que no governo dos homens tiveram uma acção efficaz, e reconhecerá se é na lição dos mestres ou se é no livre exercicio da força e da vontade individual que se criam os caracteres verdadeiramente dominadores, como o de Cromwell, como o de Bonaparte, como o de Santo Ignacio, como o de Luthero, como o de Calvino, como o de Guilherme o Taciturno, como o de Washington, como o de Lincoln.
Vossa alteza acha-se precisamente agora na grande crise de toda a sua vida, no momento psychologico da escolha entre a sujeição á direcção inepta dos seus pedagogos e a reacção da sua vontade para uma educação nova, como a que deram a si mesmos Pedro I na Russia e Carlos XII na Suecia.
A próxima viagem é a occasião propria, é a única, para se tomar essa resolução suprema. Vossa alteza tem até hoje vivido no carcere da obediência. Fazem-o circular agora pela Europa, de corte em corte, como um animal domesticado pelo snr Martens Ferrão e trabalhando á voz do snr Aguiar, dentro da jaula da disciplina.
E chamam-lhe a isso uma viagem! Mas não é mais do que uma nova lição isso! a lição derradeira, fatal e tremenda, exaltando, confirmando e fixando do modo mais perigoso no espirito de vossa alteza os erros de todas as outras lições funestas que lhe teem dado.
É preciso que vossa alteza se compenetre bem, n'este momento e de uma vez para sempre, como principe, como rei, como cidadão e como homem, para regra de todo o seu procedimento presente e futuro, quer de si para cima, quer de si para baixo,—que o regimen da obediencia é o systema da negação do caracter. O homem só é um homem desde o instante em que, perante o conflicto da consciencia e da autoridade, elle aprende a ser um rebelde. A obediencia é a fôrma forrada de cebo ou de manteiga em que se molda a massa saponancea dos servis, mas em que perde o feitio, porque se quebra ou porque se esborôa, a nobre personalidade humana.
Submisso á vontade dos seus preceptores, vossa alteza ficará para sempre um principe de fòrma, pretensioso, apelintrado e piegas, bonito para ornar uma pendula barata n'um salão chinfrin, ou para se pôr em cima de um kake coberto d'assucar, em pompa de sobremesa, n'uma bòda labrega.
Vossa alteza preferirá de certo ser aquillo para que a simples natureza o destinou—um nobre ser vivo, um bello e forte rapaz altivo, inrelligente e honrado.