Em presença pois da companhia obrigatoria e nefasta dos semsaborões officiaes incumbidos de o guardar, vossa alteza, apenas transposta a fronteira, não tem senão um d'estes dois partidos que tomar relativamente aos seus aios, pedagogos, camareiros e mestres:—subjugal-os á sua unica e exclusiva vontade, corrompendo-os: ou desfazer-se d'elles fugindo.
Encaremos com serenidade e firmeza cada uma d'essas duas soluções.
A corrupção do mestre pelo alumno tem sido por vezes vantajosamente intentada, com resultados satisfactorios para a rasão e para a humanidade.
Cumpre-nos sobre este ponto referir a vossa alteza o que succedeu com a educação do fallecido marquez de Niza, um dos raros e derradeiros homens de espirito que produsiu a aristocracia portuguesa para encanto do mundo elegante na Europa e para horror e escandalo da corte gêba e caturra dos paes de vossa alteza. A velha e veneranda senhôra marqueza de Niza, avó do actual conde da Vidigueira fidalgo da casa de vossa alteza, tinha sobre a educação do seu filho os mesmos preconceitos lamentaveis que affligem o coração amantíssimo da mãe de vossa alteza. Para dirigir a educação do joven marquez veio expressamente de Roma para o solar dos Nizas, auctorisado por um breve pontificio, o mais sabio e o mais veneravel dos monges toscanos. A presença austera do abalisado pedagogo, a sua fronte pensativa e pallida, a sua longa barba negra esparsa no escapulario do habito, a compostura das suas maneiras, o recolhimento singelo do seu porte, a alta e preciosa cultura do seu espirito encyclopedico e a sua extremada devoção, puseram em todos os velhos parentes da família um sentimento profundo de respeito, de veneração e de confiança illimitada.
Nos intervallos dos exercicios litterarios e dos exercícios religiosos, quando o monge depois de haver feito a sua lição de musica, tomava elle mesmo a rebeca do seu alumno e accordava n'elle os primeiros sentimentos estheticos, tocando por sua mão um nocturno ou um tremolo, era tão viva e tão pungente, sob a vibração do seu arco magistral, a voz do violino, que não só o pequeno marquez impallidecia, tocado de uma nova e extranha commoção mysteriosa, mas a propria senhora marquesa chorava, docemente enternecida, subjugada pela expressão penetrante da melodia que o grande artista, humildemente oculto sob a roupeta d'esse frade, espargia em torno de si n'um lento soluço orvalhante de perolas.
Terminada a educação theorica, era preciso completal-a na pratica por meio de uma viagem na Europa, e o marquez de Niza, abençoado por sua mãe, purificado pela eucharistia e pela confissão geral, partiu para Paris com o seu preceptor.
Durante os primeiros meses correu tudo n'uma serenidade e n'uma ordem verdadeiramente claustral. O preceptor escrevia por todos os correios. O menino, cada vez mais comedido, mais respeitoso e mais temente a Deus, parecia disposto a passar, sem solução de continuidade, da innocencia de um cherubim para a santidade de um doutor da igreja. Depois, a pouco e pouco, foi successivamente diminuindo o numero das cartas e augmentando o numero das contas. Os dois poços de santidade tinham-se convertido em dois sumidouros enormes de dinheiro. A senhora marquesa queixava-se repettidamente com severidade cada vez mais acrimoniosa. Chegou a final uma carta do padre. Explicações evasivas, e rasões debeis, com um perfume fortissimo de patchouli, que era então o cheiro da moda, o cheiro selected, o cheiro v'lan, segundo o termo com que mais tarde o galante rei da Hollanda tinha de enriquecer o vocabulario precioso do cocodettismo. Depois do que, nunca mais o eclesiastico escreveu. Acabou-se, em ultimo recurso, por suspender toda a remessa de numerario para Paris. Mas nem esta suppressão violenta dos meios determinou uma mudança sensivel em tão lastimoso estado de coisas. Para obter noticias positivas do marquez de Niza e do seu aio foi preciso mandar de proposito a Paris o procurador da casa, e só então se veio no conhecimento do occorrido.
O veneravel monge, depois de ter sido uma noite rebaptisado a champagne n'um gabinete do café inglez, esqueceu-se do burel pendurado no CABIDE d'esse gabinete, e fez cavalheirosamente presente d'elle ao maître d'hotel quando este lh'o quiz restituir na noite immediata. Depois, por um louvavel sentimento de respeito pela inviolabilidade sacerdotal, deitou abaixo inexoravelmente as suas barbas d'asceta, profanadas á traição pelos beijos de varias bailarinas que o adoravam, e guardou unicamente, como symbolo da rigidez dos seus princupios, um severo e implacavel bigode.
Mais tarde, quando chegou a noticia terminante que de Lisboa lhes não enviariam nem mais dez réis, o marquez tremeu. O padre então ralhou, fazendo observar que seria preciso que elles fossem ambos dois pulhas indignos para precisarem para alguma coisa do dinheiro da senhora marqueza; que seria preciso ainda que essa senhora houvesse sido miseravelmente roubada durante todo o tempo que durara a educação do seu filho, para que tanto elle como o seu mestre não estivessem perfeitamente habilitados a ganhar a sua vida pelo trabalho era qualquer parte do mundo onde a senhora marqueza se dignasse de os abandonar.
E em seguida, mettendo as caixas das rebecas debaixo do braço e acendendo uma cigarrette, foram ambos apresentar-se ao director de um theatro que os escripturou como violinos.