O § 28 do artigo 145 do titulo VIII da Carta Constitucional da monarchia garante a todo o cidadão o direito de communicar por escripto com o Poder Executivo, e é d'esse direito que hoje tomamos a libertade de usar, ao abrigo da lei, aproveitando para tal fim o momento presente, em que vossa alteza é o chefe temporareo do sobredito Poder, como regente do reino na ausencia em partes de Castella de seu augusto pae, El-Rey nosso senhor, que Deus guarde por longos e dilatados annos.
Senhor, ha obra de tres para quatro meses que os papeis publicos nos deram a boa nova de que vossa alteza iria em breve completar o tirocinio da sua educação como principe, como cidadão e como ser vertebrado, correndo algumas terras e partidas do mundo, como o finado infante snr. D. Pedro, que Deus em sua santa gloria haja.
Por essa dacta, puzeram as folhas o dedo sobre os nomes de algumas pessoas, que vagamente se suppunha virem a ser chamadas para acompanhar vossa alteza em sua peregrinação de estudo pratico atravez dos homens e das coisas da civilisação entre gentes extranhas.
Seguimos as indigitações da imprensa acerca do pessoal d'essa embaixada pedagogica, e sorrimo-nos entre desdenhosos e galhofeiros, pois abrigavamos a convicção indestructivel de que os redactores d'As Farpas eram os cavalheiros naturalmente indicados pela opinião publica e pelo consenso geral da côrte para a honrosa e ardua missão de que se tratava.
Effectivamente, Senhor, relanceando os olhos ao passado, e investigando, atravez do movimento politico e do movimento intellectual do seculo, quaes as instituições nacionaes a cuja campainha tenhamos de tanger para encontrar os varões comprovadamente aptos para se incumbirem no momento presente do honroso encargo de preceptores de vossa alteza, o que é que vemos?… Ou antes: O que é que vossa alteza vê? Porque, em nossa acrysolada modestia, nós preferimos perante essa interrogação remetter-nos a um silencio discreto, ponere custodiam ori nostro, dar dois passos atraz, curvos e submissos, com os olhos no chão e os claques debaixo do braço, aguardando tranquillos o real veredictum de vossa alteza.
Vossa alteza, havendo por bem baixar sua serenissima vista sobre as instituições patrias, vê para um lado as duas camaras, a Sociedade Geographica, a Universidade de Coimbra e o salão da senhora D. Maria Kruz; e para o lado opposto, á outra banda, vê vossa alteza As Farpas, quarenta a cincoenta volumes de uma prosa divina, a 200 réis o volume, que será a mais bella, a mais pura e a mais duradoura gloria litteraria do seculo do felicissimo principe, augusto pae de vossa alteza.
Os litteratos vindouros, chamados a illustrar pelo lavor de suas pennas o reinado de vossa alteza, procurarão á porfia imitar esta obra sublime. Porém de balde. Porque nada ha mais inimitavel, pela affabilidade do trato sobretudo, do que o critico no estado benigno de morto. Seremos pois os classicos da lingua, nós outros, para esse tempo. Seremos os Vieiras e os Bernardes do cyclo do rei Luiz, o venturosissimo. As academias archivarão, como preciosas reliquias, a lanterna e o bordão nodoso com que atravessamos a vida espargindo sobre a terra a luz e as pisaduras. Vossa alteza, octogenario, coroado de cãs, porá os seus reaes oculos para nos ler aos seus netos, aos quaes vossa alteza dirá, batendo com os nós dos dedos sobre a nossa obra amarellecida e veneranda:
—O velho rei Carlos foi tão bom e tão prasenteiro rei como o principe seu progenitor, mas faltaram-lhe Curcios e Livios d'esta laia para o immortalisarem no eterno jubilo das gentes!
E vossa alteza soluçará de saudosa magoa sobre as cabeças infantis da sua prole, considerando-se um monarcha desditoso por que na vasta perspectiva do seu reinado lhe faltou a projecção grandeosa d'esta obra cathedralesca.
Queira vossa alteza ir sempre seguindo, por partes.