Além da eschola italiana e do Santo Officio, as influencias da corte tambem combateram a poesia popular portugueza. No tempo de Dom Manoel os romances hespanhoes eram de preferencia estimados em Portugal; Damião de Goes queixa-se da importancia que os chocarreiros castelhanos gosavam na corte portugueza. El-rei queria aliviar as saudades da filha de Fernando e Isabel com os cantares da sua patria. A letra castelhana era só ouvida, como diz D. Francisco Manoel; os ouvidos portuguezes estavam aforados por essas trovas, como os accusa Jorge Ferreira. Os belfurinheiros portuguezes, que iam ás cidades de Hespanha vender os productos do Oriente, tambem traziam de lá boa copia d'esses romances. Assim, ao cultismo da eschola italiana, á pressão do Santo Officio depois da Reforma, accresceu mais esta causa que não deixou florir o romance popular portuguez, e lhe imprimiu feições que lhe não eram naturaes.
No Romancero Generale, vem um romance cujo heroe é um apaixonado portuguez victima de uma intriga amorosa; por elle se descobrem os nossos{[xxxj]} costumes antigos. No seculo XVI, os feirantes portuguezes iam levar pelas cidades de Hespanha os productos orientaes. Um d'esses, em um logar da Mancha, namorou uma mulher casada:
Alabábale su tiera,
Su nacion, su fidalguia,
Su musica, sus regalos,
Su espada en Africa limpia,
Prometiendole en efecto
Las especies de las Indias,
Los olores de Lisboa,
Y los barros de la China.
De uma vez foi tocar-lhe uma serenada, cantando-lhe em portuguez este romance do Cid:
—Afora, afora Rodrigo,
El soberbo castejano,
Acordar-se-te deveras
D'aquelle tempo já passado.
Quando te armei cavalleiro
No altar de Santiago:
Minha mãe te deu las armas,
Miño pae te deu el cabalo, etc.
Este romance tambem se encontra citado por Camões. Continuando a historia, o vendilhão entrou em casa da dama; dentro estava escondido o marido e alguns amigos que correram a pau o aventureiro galanteador. Esta classe de feirantes desappareceu quando perdemos as nossas conquistas. N'este mesmo romance se encontra um cantarcillo em portuguez, que desappareceu da tradição oral, e que talvez se refira ao tempo de D. João I:
Pois que Madanella
Remediou meu mal,
Viva Portugal
E morra Castella.
Seja amor testigo
De tamanho bem;
Não chegue ninguem
A zombar commigo.
Que a espada é rodela,
A forneira sal:
«Viva Portugal
«E morra Castella.{[xxxij]}
Se o Romanceiro hespanhol é mais extenso e antigo do que o portuguez deve-se isso á curiosidade dos livreiros de Saragoça, de Anvers, e de Sevilha, e não á esterilidade do genio do nosso povo. Se agrupassemos as innumeras allusões aos romances populares que se encontram nos quinhentistas, recomporíamos o Romanceiro portuguez e veriamos que não sômos menos ricos do que os nossos visinhos. Eis algumas citações passageiras, deixando de apontar muitas que ficaram já na Historia da poesia popular portugueza:
Quando o Conde de Marialva se queixou a Dom João III da affronta do Marquez de Torres Novas, que se declarou marido da filha Dona Guiomar, Frei Luiz de Sousa põe-lhe na bocca as seguintes palavras: «Não fizeram verdadeiramente mais affronta que esta os Infantes de Carrion ás filhas do Cid Ruy Dias, com quem eram casados. Porque se as deixaram no campo desamparadas, eram seus maridos; tomavam vingança de sy, e de sua honra propria, da qual podiam usar bem ou mal, como cada um faz do seu.»[34]
O poema de Alexandre, tão popular na Europa da edade media, tem origens orientaes; conheceram-nas em Portugal por influencia das nossas relações maritimas com o Oriente. Em uma carta que Luiz Falcão escreveu de Ormuz a D. João de Castro, em 1546, vem citada uma estorya de Allyxamdre: «Alleyxes de carualho me dixe da parte de vosa s. que lhe mãodase allyxamdre hem persyo: lla lho mãodo, haindaque has escreturas destes mouros, tenho-as por menos autemtes que has nosas. Nese llyvro vam houtras estoryas hafóra{[xxxiij]} has d'allyxamdre, has quays me parese que follguará mays com ellas etc.» A esta mesma historia allude uma carta de Garcia de la Penha: «Aleyxes carvalho pedio qua a el-rey e goazil hemires hum livro da ystoria dalyxamdre. Com muyto trabalho acharão hum, que lhe mandão.» Este livro, por outra allusão d'esta carta, se conhece que era novella ou tradição cavalheiresca: «Peço a vosa s. que ho livro, e a mim com ele, queyra aver por seus com aquela vomtade e desejo, que noso senhor sabe que lho eu ofreço, cujo estado he castidade, acompanhada de tantas virtudes, como dizem que está.»[35] A virtude da castidade era caracteristica dos heroes cavalheirescos, como se vê no Galaaz; os heroes eram quasi sempre parthenios ou filhos de virgens.