Vimos rir, vimos folgar,
Vimos cousas de prazer,
Vimos zombar e apodar,
Motejar, vimos trovar
Trovas que eram para lêr.GARCIA DE REZENDE.
PORTO
Typ. da Livraria Nacional
Rua do Laranjal, 2 a 22
—
1868
TRANSFORMAÇÕES
DO
ROMANCE POPULAR
SECULO XVI A XVIII
Os romances genuinos da tradição oral do povo foram pela primeira vez recolhidos na Silva de varios, em 1550, tendo sido anteriormente glosados pelos poetas cultos hespanhoes da corte de João II e Henrique IV; no seculo XVI receberam uma fórma litteraria, dada por Lope de Vega, Gongora, Fuentes, Lasso de la Vega, Juan de la Cueva e outros. O mesmo facto se deu em Portugal: Gil Vicente, Bernardim Ribeiro, Jorge Ferreira de Vasconcellos, Francisco Rodrigues Lobo, Dom Francisco Manoel de Mello e Balthazar Dias, glosam e imitam os romances populares, já cantando os feitos da nossa historia, já as façanhas da guerra de Troya e de Roma, da Tavola-Redonda e de Carlos Magno. Convinha colligir estas flores dispersas, por onde se mostra que o movimento litterario operado em Portugal no seculo XVI e XVII era analogo ao de Hespanha; sem ellas o Cancioneiro e Romanceiro geral portuguez seriam uma obra truncada e imperfeita.{[vj]}
Não se póde conhecer a litteratura portugueza ignorando as phases das litteraturas da edade media da Europa. Como a formação das linguas, do direito, da religião e das instituições sociaes, nenhum facto faz sentir mais do que a litteratura a unidade de raça dos povos neo-latinos. Quasi todas as transformações que experimentaram as litteraturas italiana, franceza, hespanhola e provençal,—quer na forma das primeiras poesias, nas novellas cavalheirescas, nas Chronicas ou nos contos decameronicos, no romance popular ou no sentimento da natureza despertado pela Renascença,—tudo, abertamente o sustentamos, se encontra, mais ou menos rudimentarmente, na litteratura portugueza. Foi a poesia dos jograes que soltou os dialectos neo-romanos da sua gaguez pelo canto; em Portugal vemos tambem que os primeiros monumentos linguisticos são em verso, essas canções dos seculos XII e XIII, que os criticos não tem sabido avaliar.