Como conclusão dos estudos sobre a poesia popular portugueza, parecerá que este povo não tem uma poesia privativamente sua, filha espontanea do seu genio. As creações epicas que aí ficam nos romances colhidos da bocca do povo acham-se, é verdade, com alterações accidentaes nos Romanceiros hespanhoes. Devemo-nos desgostar com a falta de originalidade? Deveriamos abandonar a missão de recolher essas venerandas reliquias, por isso que não ha n'ellas uma feição propria? Os romances pertencem ao povo hespanhol pela fatalidade da raça e pelo estado social que os produziu. Não sômos nós do mesmo sangue, do mesmo tronco celtibero? não soffremos nós as mesmas modificações no cadinho da edade media da Europa? O facto de apparecerem os romances cavalheirescos{[vij]} hoje em hespanhol é devido a uma circumstancia material, á curiosidade dos livreiros de Sevilha, Saragoça e Anvers; entre nós não se curou d'isso, mas nem por isso o povo portuguez deixou de cantar e poetisar as suas tradições. A parte mais bella dos romances hespanhoes constará, quando muito, de cem romances anonymos, os quaes se não referem a factos particulares da historia; estes mesmos andaram na tradição portugueza no seculo XVI, em tempo que a mente dos dois povos os elaborava ainda. (Leis de formação poetica, III e XIII). Se em politica Portugal e Hespanha são duas nacionalidades, nas tradições poeticas são mais do que gemeos, são um mesmo povo. O velho Romanceiro hespanhol da ultima ametade do seculo XV, o legitimamente popular, tanto é hespanhol como portuguez; são os cantos d'esta epocha os que se repetem ainda na sua pureza nativa na Beira-Baixa, Traz-os-Montes e Açores. Que importa que não tenhamos os vultos poeticos de um Cid, de um Bernardo del Carpio, se os romances que os celebraram são na maior parte de origem litteraria, compostos por Lorenzo de Sepulveda, Juan de Leyva, Lasso de la Vega, e agrupados por Juan de Escobar? O Romanceiro portuguez é pequeno; mas, ainda ha tão pouco tempo interrogada a tradição, tem dado o que ha de mais bello e mais antigo na poesia peninsular.

No tempo de Dom João I, quando o povo deu pela primeira vez signal da sua existencia politica, foi ao mesmo tempo que revelou a poesia com que se alentava. Os cavalleiros cortezãos, que discreteavam com damas, pertenciam á Ala dos Namorados e da Madre-Silva, e entretinham-se com as novellas de Cavallaria do cyclo da Tavola-Redonda: «Porque nam se nega aos Luzitanos, des ho{[viij]} tempo dos Romanos que fezeram memoria dos feytos heroycos, hum abalisado e raro grao de cavalaria. E em tempo del Rey dom João de boa memoria sabemos que seus vassalos no cerco de Guimarães se nomearam por cavalleyros da tavola redonda; e elle por el rey Arthur. E de sua corte mandou treze cavalleyros Portuguezes a Londres, que se desafiaram em campo çarrado com outros tantos Ingrezes nobres e esforçados, por respeyto das damas do Duque Dalencastro. E de Santarem sayram tres cavalleyros andantes a buscar aventuras, por toda a Hespanha gaynhando muita honra: e em nossos tempos foram outros a Italia, Inglaterra e França, em que se abalisaram como gentys soldados: vindo dahi a capitães não menos que os antigos.»[1] Porem o unico documento da existencia da poesia popular portugueza mais evidente, são essas canções que os moradores de Restello e Sacavem vinham cantar sobre a sepultura do Condestavel D. Nuno Alvares Pereira. Que ingenuidade de sentir n'aquella strophe dos pobres á porta do convento do Carmo, aonde estava Nunal'vres! Recolheram-se essas trovas mais para provar a grandeza do Condestavel do que a santidade do povo. No reinado de Dom João II os costumes cortezãos tinham banido a poetica do vulgo; os cavalleiros, quasi todos heroes na conquista do Oriente, entretinham-se nos serões do paço em fazer versos ás damas sobre casos sentimentaes, imitações das coplas de Manrique, de Juan de Mena, de Juan Rodrigues del Padron, do Marquez de Villena e do de Santillana. Garcia de Resende, recolhendo todas essas coplas, seguira o exemplo{[ix]} do Cancioneiro de Baena; a poesia de um é modello da poesia do outro. Lendo a nossa vasta collecção de 1516, encontramos os filhos de Dom João I, como Dom Pedro,[2] adoptando os versos de arte maior e enlevado na admiração de Mena; seu filho, que foi Rei de Chypre, imita o gosto prevençal nas tres canções ali conservadas.[3] Na infinidade das outras composições não se descobre a minima allusão a costumes, nem a tradições populares. Existem lá composições historicas, cuja forma não lembra o romance.

Não é para admirar. Don Agustin Duran affirma que nenhum Codice anterior á primeira metade do seculo XVI conserva vestigios da poesia popular; apenas o Cancionero general de Hernando del Castillo, publicado em Valencia de Aragon em 1511, contêm alguns fragmentos de romances glosados. Taes são os romances sacros: Durmiendo yva el Señor,[4] Terra y cielos se quexavan,[5] e mais trinta romances com glosas, como são o de Conde Claros, com glosa de Francisco de Leon e uma imitação de Lope de Sosa; o romance de Rosa fresca, rosa fresca com a glosa de Pinar; o de Fonte frida, fonte frida com a glosa de Tapia; o de Yo m'era mora morayna, e outros muitos feitos pelos poetas cultos das cortes de Dom João II e Enrique IV, como Don Juan Manoel, o Comendador de Avila, Juan de Leyva, Garci Sanchez de Badajoz, o Bacharel Alonso Poza, Juan de la Ensina.[6] Estes poetas ou se serviam de{[x]} fragmentos de romances populares para as suas glosas, ou os parodiavam. Quando, pela primeira vez, os romances populares foram recolhidos da tradição oral, em 1550, por Estevan de Najera, na colleção de Saragoça intitulada Silva de varios romances, muitos fragmentos do Cancionero de Hernando del Castillo appareceram mais completos. É natural que, antes d'esta primeira collecionação, os cantos do povo andassem em pliegos sueltos ou folha volante, com que mais tarde os livreiros tanto especularam. Pelo menos, os melhores romances da collecção de Najera encontram-se em folha solta de duas columnas, em typo gothico, sem logar de impressão, sem data e frontispicio: taes são os romances de Durandarte, de Grimaltos, do Marquez de Mantua, dos Sete Infantes de Lara, de Gayfeiros, do Conde Claros de Montalvan, do Conde Dirlos, de Calaynos, e outros muitos que se podem vêr no precioso trabalho do infatigavel Don Agustin Duran.[7] Os commentadores de Ticknor são de opinião, que antes das collecções os romances não andaram em pliegos sueltos, e fundam-se no prologo de Najera: «Eu não nego que em muitos dos romances impressos hajam casualmente erros; mas são devidos ás copias d'onde os extraí, copias quasi sempre alteradas, e á fraqueza da memoria das pessoas que nol-os dictavam e que se não podiam recordar perfeitamente.» D'onde concluem que o povo se servia de cadernos manuscriptos.[8] Ao mesmo tempo Martin Nucio imprimiu esta mesma collecção em Anvers, para{[xj]} uso dos soldados e do povo que se achava fóra de Hespanha nos Paizes Baixos. O gosto da época pelas trovas cultas fel-o adoptar o titulo de Cancionero, com que então se nobilitavam todas as collecções. Emquanto o gosto dos romances populares se vulgarisava em Hespanha, em Portugal os poetas da corte de Affonso V e Dom João II não sonham a existencia d'esse riquissimo veio de poesia, continuam nas suas trovas do cuydar e sospirar. Apenas Garcia de Resende, chronista de Dom João II, e collector das canções da sua corte, mostra ter conhecido esse renascimento em uma glosa que fez a um romance velho, e em algumas palavras da dedicatoria do Cancioneiro geral.

No Cancioneiro geral sómente se depáram, com forma de romance, umas trovas que fez Garcia de Resende á morte de Ignez de Castro, que principiam:[9]

Eu era moça menina
per nome dona Ines
de Castro, e de tal doutrina
e vertudes, qu'era dina
de meu mal ser ho rreues.
Uivia, sem me lembrar
que paixan podia dar,
nem dal-a ninguem a mim;
foy m'o principe olhar
por seu nojo e mynha fim.

N'este tempo a fórma do romance popular estava despresada completamente; Garcia de Resende, traz mais um romance fragmentado, conservado a a pretexto da glosa:[10]

RYMANÇE

Tyempo bueno, tyempo bueno,
quyen te llevo de my!{[xij]}
Qu'en acordar-me de ti
todo plazer m'es ajeno.
Fue tyempo y oras ufanas,
em que mys dias gozaron.
Mas en elhas se sembrarom
la symyente de mys canas.
Quyen no lhora lo passado,
vyendo qual va lo presente?
Quyen busca mas açydente
de lo qu'el tiempo l'a dado?
Yo me vy ser byen amado,
my deseo em alta çyma.
Contemplar em tal estado
la memorea me lastyma.
Y pues todo m'es ausente,
no ssé qual estremo escoja,
Byen y mal, todo m'anoja:
mesquyno, de quyen lo syente!

Este romance parece uma imitação dos dois celebres romances conservados no Cancionero general de Hernando del Castillo, Fonte frida, Fonte frida, e Rosa fresca, Rosa fresca, muitas e muitas vezes glosados pelos poetas palacianos. O romance de Tyempo bueno é um trecho conservado por causa da glosa. Então o renascimento das canções provençaes distrahia os serões das principaes cortes da Europa.

O romance popular era antigo e invariavel nos seus moldes; muitas das suas strophes tinham-se convertido em proverbio, como se vêem no Don Quijote; não se prestando a perpetuar as anecdotas palacianas, a glosa veiu mobilisal-o. O romance popular, simples de condição, franco, rude, tocava a verdade na sua espontaneidade mais divina; era narrativo, não sabia abstraír, dramatisava, accumulava as situações. Era preciso um genio superior para comprehender a sua ingenuidade profunda. Lope de Vega foi um dos primeiros que lhe deu importancia; começou por mostrar que o metro octasyllabo servia para exprimir os mais altos pensamentos e poz em forma de romance os dolorosissimos passos da Paixão. Rengifo, na Poetica{[xiij]} española, reconhece a superioridade do romance.[11]

Só Gil Vicente foi o unico escriptor portuguez do seculo XVI conhecedor da vida do povo, das suas superstições e dos seus cantos. Na Comedia de Rubena, representada em 1521, cita um grande numero de romances populares, a que allude, como a cousa que por sabida não repete. É certo que o nosso povo, apesar do despreso dos cultistas, continuou a acceitar o romance, e doutra sorte se não explica a reimpressão do Cancionero de Anvers em Portugal por Manoel de Lyra em 1551; a apparição do pequeno in-12, intitulado Ramilhete de flores: cuarta, quinta e sexta partes de romances nuevos hasta agora não impressos, que Pedro de Flores, collector do Romancero generale, imprimiu em Lisboa em casa de Antonio Alvares em 1593; bem como o Romancero del Cid de Juan de Escobar, em Lisboa em 1605, 1613 e em 1615, e a Primavera y Flor de los mejores romances tambem em Lisboa, nos prelos de Matheus Pinheiro, em 1626.