O romance de Dom Duardos, composto por Gil Vicente, foi recolhido no Cancionero de Romances como anonymo, e assim a historia dos amores de Bernardim Ribeiro. Na Menina e Moça encontra-se o solao da Ama e o romance de Avalor, mas com a difficil alliança do artificio provençalesco com a naturalidade da alma popular. Nas novellas cavalheirescas usava-se intercalar varias{[xiv]} composições poeticas; no Memorial dos cavalleiros da Tavola Redonda de Jorge Ferreira, se lêem muitos romances do cyclo troyano, do cyclo de Arthur, da historia de Roma, como então os fazia Gabriel Lasso de la Vega e Juan de la Cueva; mas é para notar que alguns dos romances de Jorge Ferreira se parecem muito com os romances da tradição, conservados no Cancionero de Anvers, taes como os que tratam da morte de Policena. Quando a eschola italiana se introduziu em Portugal procurou tambem banir das composições poeticas o octosyllabo da redondilha.
A eschola italiana não foi introduzida sem lucta na Peninsula; em Hespanha conhece-se bem qual foi a grandeza do combate. Em Portugal quasi nada consta, a não serem umas allusões de Sá de Miranda, de Ferreira e Bernardes. Boscan e Garcilasso davam-se por introductores em Hespanha dos novos metros italianos, fazendo uma revolução na poetica, pela qual o octasyllabo popular era expungido, substituido pelo endecasyllabo heroico. Argote de Molina nega-lhes o invento, e Lope de Vega decide-se abertamente pelo velho e despresado octasyllabo, como o metro espontaneo da lingua hespanhola. Na edição do Conde de Lucanor de 1575, Gonzalo Argote de Molina, publicou um Discurso sobre a poesia antiga castelhana, em que diz: «Bolviendo al proposito, los Castellanos y Catalanes guardaron en esta composicion (redondilla) cierto numero de pies ligados, com cierta ley de consonantes, por la qual ligadura se llamó COPLA, compostura cierto graciosa, dulce, y de agradable facilidad, y capaz de todo el ornato que qualquer verso puede toner, si se les persuadiesse esto a los Poetas deste tiempo, que cada dia la van olvidando, por la gravedad y artificio de las rimas{[xv]} Italianas, à pesar del bueno de Castillejo, que desto graciosamente se quexa en sus coplas, el qual tiene en su favor, y de su parte el exemplo deste Principe Don Juan Manoel, y de otros cavalleros muy principales castellanos, que se pagaram mucho desta composicion, como fueron el Rey Don Alonso el Sabio, el Rey Don Juan el Segundo, el Marquez de Santillana, Don Henrique de Villena, y otros de los quales leemos coplas y canciones de muy gracioso donaire.»[12]
Este documento revela-nos a reação contra a poetica estrangeira. Mas bem vistas as cousas, a questão provinha de se não ter conhecido ainda a unidade das linguas romanas. Argote de Molina, provando que os metros endecasyllabos já existiam na velha poesia castelhana, afirmava insensivelmente a unidade da poetica das linguas neo-latinas. Transcrevemos aqui a sua opinião, para uso dos que ainda attribuem a Boscan e Garcilasso essa reforma ou renascença poetica, que vulgarisou os versos grandes ou endecasyllabos: «Es grave, lleno, capaz de todo ornamento y figura, y finalmente entre todos generos de versos le podemos llamar Heroico, el qual a cabo de algunos siglos que andava desterrado de su naturaleza, ha buelto a España, donde ha sido bien recebido, y tratado como natural, y aun se puede dezir, que en nuestra lengua, por la elegancia e dulçura della, es mas liso y sonoro que en alguna vez paresce en la Italiana.—No fueron los primeros que los restituyeron a España el Boscan e Garcilasso (como algunos creen) porque ya en tiempo del Rey Don Juan el Segundo era usado, como vemos en el libro de los Sonetos y Canciones del{[xvj]} Marquez de Santillana, que yo tengo, aunque fueron los primeros que mejor le trataron, particularmente el Garcilasso, que en la dulçura y lindeza de concetos, y en el arte y elegancia no deve nada al Petrarca, ni à los demas excelentes Poetas de Italia.»[13] A lucta contra a introducção dos versos italianos foi renhida; os buccolistas chamavam ao verso octasyllabo humilde e rasteiro. Lope de Vega, com a auctoridade do seu grande nome, decide-se pelo verso nacional, e escreve o poema de Santo Isidro para o fazer valer em um assumpto religioso: «y de ser en este genero que ya los Españoles llaman humilde, no doy ninguna, porque no pienso que el verso largo Italiano haga ventaja al nuestro: que si en España lo dizen, es porque no sabiendo hazer el suo, se passan al estrangero, como mas largo, y licencioso: y yo sè que algunos Italianos embidian la gracia, difficultad y sonido de nuestras redondillas, y aun han querido imitallas, como lo hizo Seraphino Aquilano... Llamando a nuestras coplas castellanas Barzeletas, ò Fretolas, que mejor las pudiera llamar sentencias, y concetos, desnudos de todo cansado y inutil artificio, que cosa iguala á una redondilla de Garci Sanches, ò Don Diego de Mendoça: perdone el divino Garcilasso, que tanta occasion dio para que se lamentasse Castillejo, festivo e ingenioso poeta castellano, a quien parecia mucho Luis Gualvez Montalvo, con cuya muerte subita se perdieron muchas floridas coplas de este genero, particularmente la traducion de la Jerusalem de Torcato Tasso, que parece que se avia ydo á Italia à escrivirlas para meterles las higas en los ojos. Maravillosas son las estancias del excelente{[xvij]} portugues Camões: pero la mejor no yguala a sus mismas redondilhas, etc.» [14]
O proprio Boscan, no prologo ao livro II das suas poesias, descreve os ataques que soffreu a nova eschola, e nos revela a quem foi devida a idêa para a revolução na poetica nacional. Um cavalleiro italiano, muito conhecido em Hespanha pelo seu gosto e importancia individual, Navajero, estando a conversar em cousas de letras, lembrou-lhe que experimentasse as trovas usadas pelos bons autores de Italia. Boscan cedeu ás instancias e experimentou; a final o verso endecasyllabo moldava-se á nova forma, como se fosse creado com ella. Garcilasso veiu imprimir o cunho da perfeição á nova tentativa. Aqui estão os dois modelos tão imitados em Portugal pelos poetas quinhentistas. O metro octosyllabo ficou desprezado; e as composições do povo que o preferiam, ficaram até ao principio d'este seculo desconhecidas.
O metro espontaneo das linguas hespanhola e portugueza é a redondilha octosyllabica; o verso da redondilha sae falado, natural, sem se pensar. No Discurso sobre la lengua castellana de Argote y de Molina, vem: «Leemos algunas coplillas Italianas antiguas en este verso, pero el es proprio e natural de España, en cuya lengua se halla mas antiguo que en alguna otra de las vulgares, y assi en ella solamente tiene toda la gracia, lindez e agudez que es mas propria del ingenio Español, que de otro alguno.—En el qual genero de verso al principio se celebravan en Castilla las hazañas y proezas antiguas de los Reys, y los trances y successos assi de la paz, como de la guerra, y los hechos notables de los Condes, Cavalleros, y Infançones,{[xviij]} como son testimonio los Romances antiguos castellanos, assi como el del Rey Ramiro cuyo principio es: Ya se assienta el Rey Ramiro.»[15]
Muitas vezes a historia era fundada sobre os romances da tradição oral; Esteban de Garibay y Zamalloa traz na sua Historia varios romances vasconços. D'elles, diz Argote: «en los quales romances hasta oy dia se perpetua la memoria de los passados, y son una buena parte de las antiguas historias castellanas de quien el Rey Don Alonso se aprovechó en su historia, y en ella se conserva la antiguidad, y propriedad de nuestra lengua.»[16] Só a contar do seculo XVI é que os romances populares começaram a tomar uma natureza artificial; até aí as chronicas procuravam o subsidio da tradicção oral; d'aí por diante os poetas iam tirar d'ellas os motivos e factos para os seus romances. Sepulveda poz em verso os principaes factos da Chronica de Affonso o Sabio.
O que se dava em Hespanha acontecia egualmente em Portugal; Gil Vicente cantava em romances a morte de Dom Manoel, a acclamação de João III, o casamento e partida da Infanta Dona Beatriz, o nascimento de Dom Filippe. Era a moda do tempo, como confessa o proprio Sepulveda no prologo da sua collecção: «va puesto en estyllo que vuestra merced lea. Digo en metro Castellano y en tono de Romances viejos, que és lo que agora se usa.»[17] Por este tempo entraram na tradição do povo muitos romances de formação litteraria. O romance de Don Duardos, de Gil Vicente, foi recolhido{[xix]} nos Romanceiros hespanhoes; o Cavalheiro de Oliveira o colligiu outra vez da versão oral, e ha pouco nos veiu da Ilha de Sam Jorge, da freguezia dos Rosaes, outra variante não menos veneranda, se não mais pura. Estes romances eram intencionalmente compostos para serem cantados, em logar dos velhos e quasi perdidos da Tavola Redonda e do Cyclo carolino. Dil-o Sepulveda no prologo da sua collecção: que a fizera «para aprovechar-se los que cantarlos quisieren, en logar de otros muchos que yo he visto impressos y de muy poco fructo.»[18] Estes romances, a que allude Sepulveda com desprezo, são hoje a parte mais bella e divina dos Romanceiros da Peninsula. Portanto, pode dizer-se, que a transformação erudita do romance popular foi devida á falta de comprehensão dos cultistas litterarios. O mesmo tinha já succedido no seculo XV, quando o Marquez de Santillana, enlevado com os artificios da poetica provençal, considerava como infimos e despresiveis os que cultivavam a forma do romance. No seculo XVI, a imitação do classicismo e dos metros italianos fez novamente desprezar o metro octosyllabo pelo endecasyllabo heroico. Os que sustentam o combate pelo metro popular, como Lope de Vega, Argote y de Molina e Sepulveda, entregam-se ao romance como á forma mais do gosto do publico não accostumado ás canções petrarchistas. Não deixa de ser curiosa a lucta entre a eschola italiana e a nacional, em Hespanha suscitada por Boscan e Garcilasso, e em Portugal pelo Doutor Francisco de Sá de Miranda. Na sua viagem á Italia, Sá de Miranda tomou conhecimento da nova poesia; elle fala dos Provençaes, de Dante,{[xx]} de Petrarcha, de Ariosto, de Bembo, e quiz implantar cá esses modelos. Não foi bem acolhido o pensamento. Egual arruido ao que se fez com Boscan, suscitou a tentativa de Sá de Miranda. Ninguem fala n'essa lucta; mas nos poetas quinhentistas se acham a cada pagina rastos de uma mal ferida pugna.
Sobre a introducção da eschola italiana, diz Sá de Miranda na Ecloga IV, a Dom Manoel de Portugal, lume do Paço, das musas mimoso:
que são dignos
De perdão os começos já que fiz
Aberta aos bons cantares peregrinos,
Fiz o que pude....[19]
Riram-se dos novos metros; e Sá de Miranda quando esperava o bom acolhimento da boa obra,