Aquella cativa,
Que me tem cativo,
Porque n'ella vivo,
Ja não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves mólhos,
Que para meus olhos
Fosse mais formosa.
Nem no campo flores,
Nem no céo estrellas,
Me parecem bellas,
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos socegados,
Pretos e cansados
Mas não de matar.
Uma graça viva,
Que n'elles lhe mora,
Para ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabellos,
Onde o povo vão,
Perde opinião,
Que os loucos são bellos.
Pretidão de amor
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a côr.{[55]}
Léda mansidão
Que o siso acompanha,
Bem parece estranha,
Mas barbara não.
Presença serena
Que a tormenta amansa:
N'ella em fim descansa
Toda minha pena.
Esta é a cativa.
Que me tem cativo;
E pois n'ella vivo,
É força que viva.
Mote
Descalça vae para a fonte
Leonor pela verdura;
Vae formora, e não segura.
VOLTAS
Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Saínho de chamalote:
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura;
Vae formosa e não segura.
Descobre a touca a garganta,
Cabellos de ouro entrançado,
Fita de côr de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta:
Chove n'ella graça tanta
Que dá graça á formosura;
Vae formosa e não segura.{[56]}
FRANCISCO RODRIGUES LOBO
Cantiga
Descalsa vae para a fonte
Leanor pela verdura,
Vae fermosa e não segura.